De Geração para Geração | Neste fim de ano, marcado por reencontros familiares ou por saudades de quem não está mais entre nós, a Periferia em Movimento publica uma série de textos sobre a importância dessas relações com pessoas de diferentes gerações para o desenvolvimento infantil

A jornalista Gisele Brito narra sua própria história

Quando eu era criança, conversava muito com minha bisavó. Eu a chamava apenas de vó Francisca, mas ela tinha muitos nomes na minha família: Veia Chica, Mãe Quinha, Dona Francisca, Zoreião.

Ela morreu no ano 2000, quando eu tinha 15 anos, depois de passar anos senil e paralisada por um derrame. 

Mas desde que me lembro por gente, ela sempre foi velhinha. Andava com certa dificuldade, muito curvada, sempre de penhoar. Tinha o rosto marrom, magro, com muitas rugas profundas e cheias de verrugas, que eu herdei e carrego por aí. O cabelo era ralinho e com cachinhos bem formados e pequenos, sempre bem penteados com um pentinho que ela levava pra cima e pra baixo. Minha vó tinha cheiro de sabonete. 

Com ela, eu aprendi a rezar. Primeiro, uma reza de criança: “Com Deus me deito, com Deus me levanto. Com a graça de Deus e do Espírito Santo”. Mas depois fui subindo de nível, fui pras rezas mais complexas. Aprendi como funcionava o rosário e até ganhei um de bolinhas duras de plástico azul bebê.

Pra me ensinar, eu era levada pro quarto e ficava lá um tempo ouvindo e repetindo os ensinamentos daquela senhora analfabeta. Nesse ambiente seguro, ela também me ensinava a contar dinheiro e confiava a mim contar o dinheirinho da pensão que guardava muquiado debaixo da cama.

Foi ela também que me ensinou a separar feijão e me lembro que, quando chovia, ela descia pra ficar com a gente e contava umas histórias de bicho-papão, que infelizmente, não me lembro mais. Mas me lembro muito da sensação do som da chuva, da contação da história, que eu nem considerava história porque não era tirada de um livro, como eu via na TV. 

Mas quando chovia e a TV ficava desligada era que a gente conversava mais. Eu perguntava como era a cidade dela e ela contava sem muita empolgação das feiras, das palmas que cozinhavam para comer. Uma vez ela me contou que seu pai se chamava Francisco e, desde aquele momento, eu passei a chamar meu ora amigo imaginário, ora anjo da guarda de Francisco. 

Foi numa dessas conversas na chuva que ela contou a história de uma tia que “ficava apanhando amarrada no pau naquele tempo”. Lembro muito de quando ela contou isso porque parecia que ela via a imagem projetada no ar. 

Ouvi-la contar aquilo tudo fazia ela parecer ainda mais velha. Um dos assuntos constantes na família era que ela não sabia quantos anos tinha. Ela nasceu numa cidade seca próxima da Chapada Diamantina e dizia que veio para São Paulo sem documento nenhum para viver com a filha, a minha vó, nos anos 1970.

Arraste para conferir as imagens: à esq., carteira de trabalho da Vó Francisca; à dir. Gisele Brito (fotos: Arquivo pessoal)

Ela contava que tinha inventado uma data qualquer pro nascimento e que seu nome de batismo era Ana Francisca, mas que odiava Ana e por isso o omitiu na hora de fazer a certidão tardia. Ana, inclusive, era o nome de uma das suas irmãs. Mas minha vó contava que outros 2 de seus irmãos tinham ido para Goiás e nunca mais voltaram ou mandaram notícias.

Isso também era muito intrigante. Então eu tinha tios morando em Goiás? Como assim um parente seu sai e nunca mais volta ou dá notícias? Nunca soube o que aconteceu com Ana, mas durante todos os dias dos 6 anos em que minha vó Francisca passou imóvel depois do derrame, ela chamou por Ana. Às vezes chamava por horas e horas e horas. Noites e noites e noites. Ana, Ana, Ana. Eu ficava pensando: será que ela está chamando pela irmã ou por ela mesma, aquela Ana Francisca que deixou de existir ao pisar em São Paulo?

Recentemente me dei conta que minha vó devia ter algum documento da mãe. Que ao menos uma data simbólica de aniversário poderia existir. Para minha surpresa, a certidão nunca esteve perdida. Minha vó simplesmente abriu uma gaveta e me deu. Me dei conta de como eu comprei fácil a história de que minha família não tinha história e o quanto perdemos com isso. 

Na foto dela recém-chegada em SP, ela parecia mais velha do que eu me lembro dela na infância. Provavelmente, os anos de descanso da vida dura da roça, na seca, com fome, a rejuvenesceram. Mas nunca descurvaram seu corpo.

De fato, meu tataravô se chamava Francisco e minha tataravó, sobre a qual nunca falamos, se chamava Josephina, e os pais da minha tataravó se chamavam Balduino e Ana Rosa. No documento consta que a vó Francisca nasceu em 5 de maio de 1912. Se isso fosse verdade, ela teria 88 anos quando morreu, 18 a mais do que a expectativa de vida calculada pelo IBGE naquele final de século 20. 

Minha vó Francisca uma vez disse que eu era a menina dos olhos dela. Aqueles olhos azulados de cegueira e que lacrimejavam muito.

Essa minha vó é meu antepassado. É meu presente. O que sei de mais valioso sobre minha família soube por ela e isso é muito. Uma criança que conviveu com as torturas da escravidão e cria filhos livres, sem saber ler, viúva desde muito moça. Alguém que um dia trocou de nome, mas nunca esqueceu sua história e a fez prosseguir viva.

Este conteúdo faz parte da série de reportagens “De Geração para Geração”, da Periferia em Movimento, e conta com apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV)

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