De geração para geração: Conviver com pessoas de idades diferentes é fundamental para desenvolvimento infantil

De geração para geração: Conviver com pessoas de idades diferentes é fundamental para desenvolvimento infantil

Aline Rodrigues

Aline Rodrigues

Neste fim de ano, marcado por reencontros ou saudades de quem não está mais aqui, a Periferia em Movimento publica uma série de textos sobre a importância dessas relações com pessoas de diferentes gerações para o desenvolvimento infantil

Por Aline Rodrigues e Thiago Borges. Arte: Rafael Cristiano

“Como é ser filha da sua mãe?”.

Quando perguntamos isso para Manuela, ela lembra na hora delas fazendo bolo de chocolate. É o preferido da menina de 6 anos e 11 meses – diferente de seu irmão Bernardo, de 3 anos, que prefere bolo de laranja. As crianças moram com o pai e a mãe, Mayara Barros Nunes Damasio da Conceição, 27, na Vila Albertina (zona Norte de São Paulo). 

Manu, Mayara e Bernardo (foto: arquivo pessoal)

Manu e a mãe também brincam de bonecas, pulam corda juntas e já montaram um quebra-cabeça de 200 peças da Frozen. “Agora, a meta é um de 500 [peças], né Manu?”, diz a mãe, orgulhosa, que sempre incentiva a filha em novas descobertas. “A Manu é muito insegura. Tudo ela fala ‘eu não consigo’”. 

Apoios como esse são fundamentais para toda vida. E neste fim de ano, marcado por reencontros familiares ou por saudades de quem não está mais entre nós, a Periferia em Movimento publica uma série de textos sobre a importância dessas relações com pessoas de diferentes gerações para o desenvolvimento infantil. 

Na casa de Mayara, ela optou por não trabalhar fora de casa enquanto as crianças estão pequenas. “Eu sou muito criticada por isso. Às vezes, dá vontade de trabalhar, me sentir ativa novamente, mas eu vejo que é uma fase, que eles vão crescer e eu vou sentir falta [se me ausentar]. Então, eu vou ver que valeu a pena ter ficado em casa”, conta ela.

Mayara teve uma infância marcada pela ausência de sua mãe, Déia, que saía cedo e muitas vezes chegava em casa quando a filha já estava dormindo. “Minha mãe sempre trabalhou muito e supriu a gente com presentes. Nunca faltou nada aqui em casa. Eu sempre andei muito arrumadinha (…) Mas fazia muita falta a presença da minha mãe, então eu não quero transmitir isso pras crianças. Eu carreguei isso minha vida inteira”, diz Mayara.

Na casa em que a família vive, também há um cachorro e dois gatos. No mesmo quintal, ainda tem as casas de um tio e da bisavó Maria, com quem as crianças convivem bastante. Bernardo e Manuela até têm o hábito de disputar para atender o telefone que toca na casa da bisa – algo que ocorreu durante a entrevista. 

Elisa Altafim, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (foto: Divulgação)

Segundo Elisa Altafim, esse tipo de contato familiar é muito importante na primeira infância. “São nessas relações, nessas interações, que vamos promovendo o desenvolvimento da criança”, explica ela, que é especialista da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) na área de parentalidade e desenvolvimento da criança. 

Elisa reforça que até a ação mais corriqueira tem impacto direto nesse processo – pode ser um olhar ou uma conversa enquanto arruma a casa, lava a louça ou dá banho na criança. “[É fundamental] para desenvolver tanto a parte da linguagem, quando a das relações sociais, com aspectos emocionais, e o próprio desenvolvimento físico”, continua.

Família estendida

É na hora do banho que Eliza dos Santos Sena, 3, se diverte. A pequena chega da creche, na qual passa o dia inteiro, e ganha atenção da mãe até a hora de dormir. A preparação para o sono inclui conversas e brincadeiras. “Na hora que ela chega pra lanchar, que eu compro algo que ela gosta muito, tanto pra comer quanto pra brincar (….) Sempre que tem algo ela fica muito feliz e agradece: ‘obrigada, mamãe’”, diz Dayne de Sena, 34. A família mora no Jardim Ângela (zona Sul de São Paulo).

Quando o pai Leandro, de 36 anos, chega do trabalho, Eliza corre para contar como foi seu dia. A irmã Sabrina, de 13 anos, também participa. “Eu sempre levo ela pra andar de bicicleta na viela onde nós moramos, mas quando eu tenho um pouco mais de tempo eu  levo ela na rua”, diz Dayne, que aos fins de semana vai com a caçula na casa onde vivem sua mãe, 3 irmãos e muitas outras crianças.

Dayne, Sabrina, Eliza e Leandro (foto: Arquivo pessoal)

A outra Elisa, da FMCSV, complementa que todas as relações que a criança tem no dia a dia contribuem com sua formação – seja um “oi” a alguém que cruza na rua a caminho da escola, seja na convivência com avós, vizinhes ou outres parentes.

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“Muitas vezes, são avós que na ausência dos pais acabam tendo a responsabilidade pela criança (…) Adolescentes podem ser uma ótima oportunidade para brincar, conversar com as crianças, para apoiar os adultos. Só precisa de atenção para não assumirem responsabilidades que não são deles”, comenta a especialista.

Para Lucimeire Juventino, 42, o ambiente é essencial para esse desenvolvimento. “Essas relações são oportunidades de vivenciar situações de uso social real, de estar em contato com valores, costumes, com ancestralidade, diversidade cultural. Isso traz respeito, valorização, conhecimento de si e do outro”, diz ela, que há 20 anos atua na educação pública infantil no Extremo Sul de São Paulo. 

E, mais do que isso, Lucimeire está há pelo menos 30 na educação não-formal, seja por meio do hip hop, da literatura periférica ou das ações em família. “A questão do quintal, da fogueira, do sarau… Isso trouxe respeito, a valorização, a vez do outro, principalmente em relação aos idosos. E isso ainda é um grande desafio”, continua ela, que é de uma linhagem de profissionais da educação. 

Para além dos limites domésticos

A família é a base para o desenvolvimento dessa criança, mas não significa que não há uma responsabilidade coletiva sobre isso. Elisa ressalta que é importante garantir ambientes seguros para a educação, que podem permitir quebrar ciclos de pobreza e violência. Da mesma forma, é importante que haja investimento nas redes de proteção, com escolas e centros de referência da assistência social. 

“Com isso, a gente também promove a sociedade”, explica Elisa. Ela cita legislações existentes nesse sentido, como o Marco Regulatório da Primeira Infância e a Lei do Menino Bernardo. E aqui, vale citar ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completou 31 anos em 2021. 

Lucimeire Juventino, durante episódio da série de reportagens “Matriarcas” (foto: Periferia em Movimento)

No chão da escola, Lucimeire tirou os parâmetros curriculares do papel. Em um CEU onde trabalhava, promoveu o encontro entre crianças da educação infantil e adolescentes do ensino fundamental. E já levou avós para dentro das salas, especialmente com atividades relacionadas à literatura. “A relação criança-criança tá posta. Mas quando falamos da relação criança-idoso, estamos falando do quanto isso traz de benefício para estrutura de desenvolvimento daquela criança”, ressalta Lucimeire.

A educadora observa que a pandemia deixou um rastro de dor que ainda precisa ser trabalhado com as políticas públicas. Com a recente volta às aulas presenciais, ela percebeu que muitas dessas crianças viveram ou estão vivendo o luto pela perda de pessoas próximas – em muitos casos, a avó que era tutora a maior parte do dia e supria com afeto e também materialmente, com sua aposentadoria, colocando comida na mesa de casa.  “O quanto o Estado, o quanto nós garantimos a não vulnerabilidade dessas pessoas? (…) São pessoas que ajudavam na construção do eu, da identidade, e que se foram”, questiona.

Em suas práticas, Lucimeire se norteia nas civilizações africanas. “É uma outra visão de sociedade, de pessoa, de convivência e, principalmente, de valorização do idoso, de se perder uma enciclopédia quando essa pessoa morre”, explica. “O quanto a gente perde por deixar uma criança distante da sua historicidade, de conhecer a própria história? isso é valorização da própria identidade dela, de referência, e vai fazer diferença na personalidade e principalmente na autoestima dessa pessoa”, completa.

Este conteúdo faz parte da série de reportagens “De Geração para Geração”, da Periferia em Movimento, e conta com apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV)

Colaboração

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