Periferias no poder: 100 dias de mandatos periféricos na Câmara de SP

Reportagem de Thiago Borges. Edição de vídeo por Pedro Ariel Salvador e Vitori Jumapili. Design: Rafael Cristiano

Ainda era o 30º dia de 2021 quando um homem foi visto efetuando disparos em frente à casa de Samara Sósthenes na região de Guarapiranga, Extremo Sul de São Paulo. Samara é co-vereadora pelo Quilombo Periférico, mandato coletivo eleito no ano passado na cidade de São Paulo. Naquele semana, outras 2 parlamentares trans e travestis sofreram ataques e ameaças: em 27 de janeiro, Carol Iara (que integra o mandato coletivo Bancada Feminista) denunciou um atentado a tiros contra a casa em que estava com mãe e irmão, na zona Leste. E no dia 26, dentro da Câmara Municipal, um homem perseguiu Erika Hilton – vereadora trans e negra que foi a mulher mais votada para o legislativo paulistano, com 50 mil votos.

Os casos acima marcaram o início desses mandatos que, além de fazerem parte do PSOL, são compostos por pessoas trans, negras e periféricas – historicamente, grupos muito pouco representados nesse ambiente. “Quando chega um ‘corpo’ parecido com o nosso na Câmara, eles [funcionários] já sabem que tá indo no nosso gabinete”, explica Elaine Mineiro, co-vereadora titular do Quilombo Periférico, que além dela e de Samara agrega outras 4 pessoas (Alex Barcellos, Debora Dias, Erick Ovelha e Julio Cezar Andrade).

Com 100 dias de mandato, as dificuldades continuam muitas, mas também há aprendizados e conquistas para celebrar. A Periferia em Movimento conversou com o Quilombo Periférico e com Luana Alves, que é líder do PSOL na Câmara e tem uma trajetória política construída na saúde público e junto a cursinhos populares da Rede Emancipa, muito presente em periferias da cidade.

Assista abaixo:

A última eleição municipal registrou o recorde de 2 mil candidaturas para 55 cadeiras de vereador – o que dá uma média de 35 candidatos por vaga. Como abordamos durante a campanha, muitas dificuldades marcaram essas candidaturas – desde a pandemia até a falta de recursos financeiros para disputar o pleito igualitariamente.

Ainda assim, algumas candidaturas identificadas com as pautas antirracista, antimachista e antilgbtfóbica e, ao mesmo tempo, por direitos sociais fundamentais, conseguiram se eleger. O desafio, agora, é entender os mecanismos do poder para pautar essas questões.

Luana lembra de uma ocasião em que não foi informada sobre uma reunião de líderes de partidos com o vice-prefeito Ricardo Nunes – e, literalmente, seguiu um grupo de parlamentares brancos para descobrir do que se tratava.

No Quilombo, o grupo de co-vereadores tem se colocado em diversas discussões, desde o uso de instrumentos para cobrar ações de zeladoria urbana até a participação em comissões. “É fazer justamente o papel do vereador”, ressalta Elaine, primeira mulher negra a presidir a Comissão de Finanças da Câmara, que entre as atribuições é responsável por analisar o orçamento e os tributos do município.

Tanto para Luana quanto para o Quilombo Periférico, é fundamental que haja um acompanhamento da rotina da Câmara pela sociedade. “A gente tem que pressionar do lado de fora”, completa Luana.

Fomento à Cultura da Periferia: Prefeitura de SP lança edital de R$ 11 milhões

Foto em destaque: Luta do Movimento Cultural das Periferias em 2016 / Thiago Borges

Como parte do Plano de Amparo à Cultura 2021, a Secretaria Municipal de Cultura antecipa as inscrições da sexta edição do Programa Municipal de Fomento à Cultura da Periferia. Com orçamento de R$ 11.480.000,00, o edital está com as inscrições abertas até as 18h do dia 31 de maio de 2021.

O edital deve ser publicado ainda nesta quarta-feira (7/4) no Diário Oficial da Cidade, mas já pode ser consultado. Confira aqui. As inscrições devem ser realizadas através do sistema da Prefeitura aqui.

Fruto da luta do Movimento Cultural das Periferias (MCP), o programa existe desde 2016 e tem como objetivo o apoio financeiro a projetos e ações culturais propostos por coletivos artísticos e culturais em andamento nos distritos ou bolsões com altos índices de vulnerabilidade social, especialmente nas áreas periféricas do município de São Paulo, com base no censo de 2010 do IBGE.

Cada projeto pode ter duração de até 24 meses e com orçamento total entre R$ 124.065,50 e R$ 372.196,49. Nesta edição, o recurso total do programa é suficiente para apoiar ao menos 30 iniciativas.

O programa apoia financeiramente projetos e ações culturais que tenham os seguintes enfoques: gestão de espaços culturais autônomos, pesquisa, criação, produção, difusão e circulação de produções culturais e artísticas das áreas periféricas, arranjos produtivos econômicos locais, como estúdios comunitários, produtoras culturais e editoras, e processos de articulação de redes e fóruns coletivos culturais, entre outros.

“O Programa Municipal de Fomento à Cultura da Periferia é uma referência de ação concreta do poder público para apoio aos artistas e profissionais da cultura da periferia. É uma maneira de atenuar a desigualdade nessas regiões, e se torna mais urgente ainda nesse contexto de vulnerabilidade social potencializado pela pandemia”, afirma Alê Youssef, secretário municipal de cultura de São Paulo.

A iniciativa integra o Plano de Amparo à Cultura 2021, um conjunto de medidas para o setor cultural em meio às dificuldades e restrições de isolamento social impostas pela pandemia da covid-19.

Nós por nós: Campanhas combatem a fome e o vírus na quebrada

Por Nós, Mulheres da Periferia e Periferia em Movimento. Foto em destaque: Escola Feminista Abya Yala

O número de casos confirmados e mortes por covid-19 no Brasil chega ao nível mais alto em 1 ano, colocando o País no epicentro global da pandemia. Enquanto faltam leitos em hospitais, o governo federal avança pouco no enfrentamento à crise, com a campanha de vacinação em ritmo lento e a aprovação de um auxílio emergencial menor: o valor médio das parcelas deve cair para R$ 250 e 1 em cada 4 beneficiários deve ser excluído na nova rodada de pagamentos. 

Por isso, é importante destacar as vaquinhas e campanhas de solidariedade realizadas por movimentos, coletivos e organizações sociais com o objetivo de socorrer e garantir a sobrevivência das pessoas mais afetadas pela crise sanitária, social e econômica: a população indígena, negra, moradora de periferias, favelas e ocupações.

A Periferia em Movimento e o Nós, Mulheres da Periferia levantaram 36 campanhas para contribuir e amenizar o impacto da pandemia nas periferias de São Paulo e do Brasil. Confira abaixo!

A lista abaixo foi atualizada em 6/4/2021 e segue com inclusão de novas campanhas. Se você tiver indicações de outras iniciativas, envie para os números de whatsapp (11) 957816636, da PEM e (11) 98782-3804, do NMP.

O Fundo solidário Rede de Apoio Humanitário ao combate da Covid-19 também criou um mapa interativo onde é possível encontrar outros lugares da cidade de São Paulo, que não necessariamente estão na lista abaixo. Confira aqui.

Zona Sul

  1. Brigada Catarina – Vila Santa Catarina

A comunidade de alunos da EMEF Bernardo O’Higgins e de trabalhadores da região se reuniu para apoiar as famílias na luta contra a pandemia. As doações de alimentos e produtos de limpeza são feitas a 150 famílias de estudantes da região da Alba e da Espraiada em situação de extrema vulnerabilidade. 

Como doar? Pela vaquinha virtual aqui.

  1. Casa do Zezinho – Parque Santo Antônio

Em 2020, a organização conseguiu distribuir mais de 18 mil cestas básicas e itens de higiene a famílias de mais de 1.300 crianças e adolescentes matriculados na instituição, que atua no Parque Santo Antônio e região. A retomada acontece diante do agravamento dos efeitos da covid-19, do desemprego e da fome. 

Como doar? Pela vaquinha virtual aqui.

Endereço: R. Anália Dolácio Albino, 77 – Parque Maria Helena

  1. Cooperativa de Catadoras da Granja Julieta

Impedidas de trabalhar por conta das restrições da pandemia, as famílias de 22 cooperadas que trabalham com reciclagem enfrentam dificuldades para comprar comida, gás e produtos de limpeza. Por isso, o grupo arrecada recursos financeiros para distribuir às mulheres. 

Como doar? Por transferência bancária para Mara Lúcia Sobral Santos, liderança da cooperativa (Banco do Brasil, agência: 5944-7, CC 205 886-3, CPF 183.032.128-50).

  1. Rede de Apoio no Campo Limpo

Após atender mais de 3 mil famílias em 2020, a articulação entre coletivos e organizações da região retoma a campanha para doar cestas básicas diante do agravamento da pandemia e a redução do valor ou exclusão de pessoas do auxílio emergencial.

Como doar? Pela vaquinha virtual (clique aqui) ou por depósito bancário (chave PIX: [email protected] – Nu Pagamentos em nome de Daniel Perez Duarte)

Organizações responsáveis: Coletivo Ifé, Coletiva Fiandeiras, Bloco do Beco, Coletivo Passo à Frente, Sarau do Binho, Biblioteca Comunitária Djeanne Firmino e UBM Capital

  1. Sociedade Santos Mártires – Jardim Ângela

Com diversos serviços assistenciais, a Sociedade Santos Mártires se mobiliza para auxiliar famílias no Jardim Ângela. A organização já distribuiu mais de 20 mil cestas básicas e mais de 4.500 vales-compra de R$ 300.

Como doar? Por depósito bancário para a Sociedade Santos Mártires, CNPJ 60731569/0001-59. Contas no Banco do Brasil (agência 4215-3; CC: 12101-0) ou Bradesco (agência 2744, CC 9545-1). Envie o comprovante para [email protected]

Endereço (se preferir levar pessoalmente): Paróquia Santos Mártires (rua Luís Baldinato, 09) ou Centro São José (Estrada da Riveira, 4624)

Mais informações pelo telefone (11 975352181) ou site.

6. Lar Maria e Sininha – Eldorado

Organização que atua na promoção, defesa e garantia de Direitos da criança e adolescente no jardim Mata Virgem, bairro do Eldorado, zona sul de São Paulo. Com a chegada da pandemia, o Lar tem socorrido e apoiado as mulheres da região com a distribuição de cestas básicas e trabalhos com foco na recolocação das atendidas no mercado de trabalho.

Como doar? Doe direto para a conta Itaú (Agência 0257 / conta corrente: 10.009-9) ou via Banco Bradesco (chave PIX: 60.556164/000121).

Endereço: R. da Saúde, 739 – Eldorado.

Mais informações por e-mail ([email protected]) ou instagram.

7. Comunidade de Samba Pagode Na Disciplina – Jardim Miriam 

A comunidade distribuído cestas básicas para famílias cadastradas da região desde 2020, além de entregar marmitas diariamente para pessoas que estão em condição de fome.

Como doar? Manifeste seu interesse de doação via Facebook ou a página do Instagram @disciplinajdmiriam

Mais informações com Luana Vieira pelo e-mail [email protected]

8. Grupo Espírita Fabiano de Cristo – Americanópolis  

Desde abril de 2020 a tradicional casa Fabiano de Cristo começou o serviço de assistência para as famílias impactadas pela pandemia.  Já conhecida pelo serviço de sopa e entregas de cesta básica, a crise causada pelo vírus intensificou este serviço. O grupo tem entregado cestas de alimentos, roupas e agasalhos todos os sábados.

Como doar? Você pode colaborar fazendo por depósito em conta: Banco Itau (Ag: 0846 – c/c: 00680-7) e ou Bradesco (Ag: 0837 – c/c: 96113-2).

Para entregas pessoalmente, o endereço é: Rua Delfino Facchina, 61 (Cidade Ademar) – Americanópolis.

Mais informações no site.

9. Rede de Mulheres Periféricas contra a covid-19

Ao longo de 2020, a Escola Feminista Abya Yala, rede de mulheres periféricas da zona sul, apoiou pontualmente centenas de pessoas e auxiliou permanentemente 100 famílias chefiadas por mulheres com cestas básicas, alimentos orgânicos, atendimentos psicológicos e encaminhamentos aos serviços públicos. Em dezembro, organizamos a entrega das cestas de natal que, além dos kits de alimentos e material de limpeza, contavam com livros, brinquedos, panetones etc.

A pandemia não acabou e a fome continua a afetar de forma violenta as periferias , por isso estamos organizando uma nova campanha de solidariedade. Dessa vez, pretendemos apoiar 30 famílias chefiadas por mulheres com R$ 150,00.

Como doar? Pela vaquinha virtual (clique aqui)

Mais informações no instagram ou no facebook.

10. Rede de artistas do Campo Limpo

Um grupo de 10 artistas do Festival Campo Limpo Resiste se juntou para arrecadar e distribuir cestas básicas a famílias do território. Cada cesta deve custar em torno de R$ 120, mas as contribuições podem ser a partir de R$ 30.

Como doar? Por transferência bancária via PIX para Rubens Oliveira Martins (chave PIX 11972648433). O comprovante deve ser enviado por e-mail para [email protected]

Mais informações aqui

11.Cine Pracinha – Jardim Piracuama

O Cine Pracinha, um projeto de formação de público para o audiovisual que trabalha com crianças no Jardim Piracuama (região do Campo Limpo), está promovendo uma campanha para apoiar famílias locais. O objetivo é doar 50 cestas no valor de R$ 60 cada uma. 

Como doar? Entre em contato pelo instagram aqui.

Extremo Sul

12. Ocupação Jardim da União – Grajaú

Mais de 500 famílias vivem na ocupação por moradia localizada no Grajaú – boa parte delas chefiadas por mães solos, que atuam como diaristas, empregadas domésticas, terceirizadas da limpeza, manicures ou ambulantes, que ficaram sem renda devido à pandemia de coronavírus. 

Como doar? Pela vaquinha virtual aqui.

Travas da Sul distribui cestas para população LGBTQIA+ (Foto: Divulgação)

13. Travas da Sul – Grajaú

Coletiva formada por e para pessoas LGBTQIA+, a Travas da Sul realiza ações artísticas e, desde o início da pandemia de coronavírus, distribuiu mais de 500 cestas básicas especialmente para a população transvestigênere. Agora, a meta é conseguir comprar e distribuir mais 150 cestas.

Como doar? Pela vaquinha virtual (aqui) ou transferência bancária (chave PIX 39123985852, em nome de Diogo Emanuel)

Mais informações pelo instagram aqui.

14. Rede Fundão do Grajaú

Formada por moradores, lideranças comunitárias e trabalhadores da saúde, da educação, da assistência social e da cultura, a Rede Fundão do Grajaú atua diretamente com pessoas que vivem em bairros à margem da represa Billings, em situação de alta vulnerabilidade. Por isso, se mobiliza diante do atraso da vacinação e das restrições do auxílio emergencial para socorrer a população.

Como doar? Pela vaquinha virtual aqui.

Zona Noroeste

15. Apoio Mútuo Jaraguá Taipas

Organizada pelo Coletivo de Mulheres da Noroeste, pela Organização Anarquista Socialismo Libertário e pela Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, o Apoio Mútuo Jaraguá Taipas arrecada e distribui donativos para famílias da região Noroeste de São Paulo.

Em caso de dúvidas ou indicação de famílias necessitadas, entre em contato via facebook e pelo e-mail ([email protected]).

Como doar? Por meio de transferência bancária: utilize a chave PIX 11 99499-4465 em nome de Ana Claudia dos Santos para Caixa Econômica Federal (agência 3012, operação 001, CC 27113-8) ou Bradesco (agência 0504, C/C 0461469-0); ou faça pelo picpay @apoiomutuojaraguataipas, ou no paypal e Mercado Pago [email protected]

Rede de Apoio Humanitário nas Periferias (foto: Divulgação)

16. Doação Solidária Nós que Tá (Morro Doce)

De forma voluntária, moradores do Morro Doce organizam as cestas de alimentos que recebem da Uneafro, de empresas e comércios do bairro, assim como de moradores. Também realizam entregas de marmitex.

Como doar ou receber ajuda? Falar com Cida por meio do whatsapp 11 94666-3083.

Endereço: Coronel José Gladiador, 84, Morro Doce (Perus).

17. Projeto De ponta a ponta

Os integrantes compram alimentos de agricultores e os entregam às famílias em vulnerabilidade social.

Como doar? Por meio do Pay-pal clicando AQUI Banco do Brasil/ Agência 1552-0/ CC: 23462-1/CNPJ 07.037.770/000-1/58/Instituto Kairós.

Mais informações pelo telefone (11) 98716-2915 ou instagram.

Zona Norte

18. Associação de Moradores do Alto da Brasilândia

Desde o começo da pandemia, a organização vem realizando doações, tanto de cestas básicas quanto de marmitas. Já foram entregues mais de 70 mil marmitas e a organização continua pedindo ajuda para continuar oferecendo o apoio.

É possível falar com Claudio Rodrigues por meio do número (11) 953303566. O endereço do local é Rua Ignácio Leopoldo de Camargo, 47, Brasilândia.

Como doar? Por meio do Paypal diretamente no site da organização (clique aqui); entrando em contato diretamente pelo whatsapp +55 11 95330-3566 ou por PIX: 8b36d4bf-e13d-496d-b1f9-0149bb475282

Mais informações no facebook, no instagram ou no site.   

Zona Leste

19. Okupação Coragem – COHAB José Bonifácio

A Campanha Quebrada Solidária surgiu, em março de 2020, da união do C.O.R.A.G.E.M., do Resiste Quebrada e de vários outros coletividades da quebrada, com objetivo reduzir os impactos sociais causados pela pandemia do Covid-19.  Até o presente momento, foram arrecadadas e distribuídas mais de 1300 cestas básicas.

O que doar: alimentos, produtos de higiene, produtos de limpeza, máscaras, roupas, cobertores e valor monetário.

Como doar? Entrar em contato pelo whatsapp com Michele 99289-7608 / Nisia- 96024-5697

Devido a fase roxa é necessário entrar em contato por telefone e marcar horário para entregar a doação na Okupação, que fica na Rua Vicente Avelar, 53 – Praça Brasil. Cohab José Bonifácio. Fora dessa fase, o espaço fica aberto de terça à domingo.

20. Associação Meninas dos Olhos de Ouro – Cidade Tiradentes

A Associação recebe alimentos, produtos de limpeza e móveis para doação à famílias em situação de vulnerabilidade na Cidade Tiradentes, extremo da zona leste de São Paulo. 

Como doar? Entrar em contato com Fátima pelo número 11 977723744 ou ir até a associação que fica no endereço: Rua Luis Bordese, 93 – Sobreloja 7 – de segunda a sexta, das 10h às 17h30

21. Projeto ACNU (Amor de Cristo Nos Uniu) Cidade Tiradentes e Guaianases

Grupo católico que organizava retiros e encontros entre jovens. Desde o início da pandemia tem realizado ações para crianças e distribuído cestas básicas na região da Cidade Tiradentes e Guaianases.

O que doar? Alimentos não perecíveis e produtos de higiene

Como doar? Entrar em contato com Franklin pelo número 11 96745-0512 e combinar ponto mais próximo para entrega.

22. Rede Nós por Nós CT

Em 2020, movimentos, artistas e coletivos de Cidade Tiradentes formaram uma rede de apoio e conseguiram aliviar o sofrimento de 900 famílias da região. Com o agravamento da situação, o grupo retoma a campanha de solidariedade. 

Como doar? Entre em contato pelo instagram (clique aqui) ou pelo facebook (clique aqui).

Responsáveis: Coletivo de Esquerda Força Ativa, Núcleo de Ação Cidade Tiradentes, Associação Pró Cultural Encontro das Águas, Associação São Vicente de Paulo Jardim Vitória, Coletivo Negro Minervino de Oliveira, Coletivo Cultural Cine Campinho

23. Acaçá Axé Odó e Slam da Guilhermina – Vila Guilhermina

O Acaçá Axé Odó – Centro de Referência e Resgate da Cultura Afrobrasileira e Indígena e o Slam da Guilhermina estão distribuindo cestas básicas a 60 famílias da região e pede apoio para continuar ajudando.

Como doar? Por transferência bancária via PIX (chave [email protected]) ou na conta de Eliana Paixão (Banco do Brasil, agência 6752-0, conta corrente 6698-2).

Mais informações aqui.

Zona Sudeste

24. UNAS Heliópolis e Região

A UNAS – União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região é uma entidade sem fins lucrativos que surgiu em 1978 enquanto comissão de moradores da favela de Heliópolis, que lutava pelo direito à moradia e posse da terra.

Há 1 ano realiza a campanha #HeliópolisNoCombateAoCoronavírus para apoiar as famílias que estão em situação de maior vulnerabilidade durante a pandemia.

Como doar? Pelo site (clique aqui) ou presencialmente. Basta entregar os itens em nossa sede, localizada na Rua Da Mina, 38 – Heliópolis, de segunda a sexta-feira, das 10hs às 16hs.

25. Coletivo Perifatividade – Fundão do Ipiranga

Com a campanha Perifativos contra o vírus, o coletivo Perifatividade soma esforços para minimizar a fome de famílias no Fundão do Ipiranga. É possível doar qualquer quantia em dinheiro e, a partir de R$ 80, os benfeitores ganham um kit de livros da literatura periférica.

Como doar? Por transferência bancária via PIX para [email protected])

Mais informações aqui. https://instagram.com/perifatividade?igshid=1vbufmk4uw2gf

Região Central

26. Casa Laudelina – Canindé

A Casa Laudelina é fruto de uma ocupação de mulheres no bairro do Canindé. Há um mês acolhe, orienta e encaminha mulheres vítimas de violência. O funcionamento é voluntário e precisa de apoio para resolver questões urgentes de estrutura para poder dar atendimento digno para mulheres.

Para contribuir, há uma vaquinha on-line e também uma conta bancária reunindo contribuições financeiras, além de receber doações de alimentos e produtos de higiene e limpeza no local para montar cestas e distribuir para as mulheres em situação vulnerável.

Como doar? Na vaquinha online aqui. Para doar na conta bancária Caixa Econômica | Ag: 1367 | Conta Poup: 00032381-1 | Oper: 013 | CPF/CHAVE PIX: 091.182.556-80 | Titular: Rafaela Carvalho

Mais informações no facebook ou instagram.

27. Brigadas de Solidariedade 

As Brigadas de Solidariedade funcionam há um ano, desde o início da pandemia. Durante os meses da campanha eleitoral realizou seu trabalho sem divulgação, mas nunca deixou de atender centenas de famílias de forma continuada e outras centenas de forma pontual. As Brigadas reúnem doações, em dinheiro e em produtos, montam e distribuem cestas básicas e de higiene e limpeza para as famílias, orientam sobre os riscos da covid e como se proteger e fornecem máscaras e álcool em gel em bairros onde o Estado não garante os direitos básicos.

Doação em dinheiro BANCO 260 (NUBANK) | Ag 0001 | Conta 20080441-0 | Guilherme de Moura Brasil Júnior | CPF 422.678.358-19 | Pix [email protected] 

Mais informações: (11) 972906185 (Podemos gerar um boleto, solicitar pelo whatsapp) ou nas redes sociais (instagram e facebook).

Região Metropolitana de São Paulo

28. Ação de solidariedade entre trabalhadores da cultura – Osasco

Diante da falta de atenção das autoridades da cidade, um grupo auto-organizado arrecada produtos e recursos para colaborar na manutenção da vida de uma categoria que está entre a mais atingida pela crise provocada pela pandemia. Para as famílias que querem se cadastrar, é possível fazer isso clicando aqui.

Como doar? Pela vaquinha virtual ou com entrega de alimentos na rua Paulo Emydio Pereira, 322, bairro Bela Vista, em Osasco.

29. Projeto Canto Íris – Osasco

Projeto social que nasceu do sonho de uma estudante para sua comunidade, Miguel Costa, hoje o projeto reúne jovens e atua em diferentes pontos do município com poesia, biblioteca comunitária, esportes e conscientização sobre direitos humanos, igualdade de gênero, combate ao racismo e direitos da população LGBTQIA+. Agora, o grupo arrecada recursos para comprar e distribuir cestas básicas mensalmente. Cada cesta básica custa em média R$ 59.

Como doar? Por transferência bancária via PIX para [email protected] (o comprovante pode ser enviado pelo whatsapp 11 987968205, aos cuidados de Ana).

Mais informações aqui ou aqui.

Nacional

30. Campanha Tem gente com fome

Com objetivo de entregar cestas básicas a 222 mil famílias em todas as regiões do Brasil, diversas organizações lançaram uma campanha nacional de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia.

Como doar? Pelo site aqui ou transferência bancária (Chave PIX 11.140.583/0001-72, em nome da Associação Franciscana DDFP, Banco do Brasil, Agência: 1202-5, CC 73.963-4)

Organizações responsáveis: Coalizão Negra por Direitos, Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Associação Brasileira de Combate às Desigualdades, 342 Artes, Nossas – Rede de Ativismo, Instituto Ethos, Orgânico Solidário e Grupo Prerrogativas.

31. Campanha dos povos indígenas do Sudeste

Com cerca de 200 aldeias dos povos guarani, tupi, kaingang, terena, krenak e tupiniquim, maxakali, xakriabá e xukuru-kariri, além de indígenas em situação urbana, a população indígena da região Sudeste não tem total autonomia para plantar e se alimentar só com os recursos da terra. E, diante da pandemia de coronavírus, os grupos sofrem risco real de sobrevivência. 

Como doar? Via transferência bancária para a Comissão Guarani Yvyrupa (CNPJ 21.860.239/0001-01, Banco do Brasil, agência 3560-2, conta corrente 25106-2). Para conferir os pontos de coleta presencial em toda a região, clique aqui.

Organização responsável: Comissão Guarani Yvyrupa

32. Povos de área urbana de Humaitá – Amazônia

A organização dos povos de área urbana de Humaitá (AM), além de lidar com a pandemia, sofre com a cheia dos rios. 

Como doar? Bradesco: Agência – 3713-3/ C/C – 15392-3/ Marivaldo do Nascimento/ CPF 580764412-34 ou via PIX: [email protected]/ PicPay: sn.jamille

33. Movimento Luta Popular

Distribuição de marmitas em ocupação de Jacareí, interior paulista (Foto: Luta Popular)

Com atuação em diversas ocupações por moradia, periferias e favelas do Brasil, o movimento Luta Popular mantém aberta uma campanha de solidariedade para arrecadar e distribuir alimentos, itens de higiene e limpeza, máscaras e álcool em gel. 

Como doar? Por depósito bancário para Daniela de Almeida Embom (CPF/chave PIX 31805150820, Banco do Brasil, agência 4752-X, CC17850-0).

34. Rede de cursinhos populares Uneafro Brasil

Presente em 31 bairros de São Paulo e Rio de Janeiro, a rede Uneafro está utilizando seus núcleos de educação popular para dar apoio a famílias que dependem do trabalho informal ou estão desempregadas. O objetivo é captar cerca de R$ 1 milhão.

Como doar? Pela vaquinha virtual ou transferência bancária (Chave PIX 11.140.583/0001-72, em nome da Associação Franciscana DDFP, Banco do Brasil, Agência: 1202-5, CC 73.963-4)

35. Cozinhas Solidárias do MTST
O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) implementou 16 cozinhas solidárias com o objetivo de impactar diretamente a vida da população mais vulnerável das periferias.

Há cozinhas nos estados de Roraima, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, duas no Distrito Federal, quatro nas periferias de São Paulo e uma na região do ABC paulista. As Cozinhas Solidárias funcionarão todos os dias distribuindo almoços grátis para as famílias das periferias dos centros urbanos do país. Num momento de pandemia e crise, a distribuição de refeições prontas beneficia diretamente mulheres, crianças e idosos.

Como doar? CHAVE PIX CNPJ: 28.799.171/0001-41/ Banco: Itaú/ Agencia: 8170/ Conta: 30682-6/ Associação Amigos da Luta dos Sem Teto/ CNPJ: 28.799.171/0001-41

Mais informações: https://apoia.se/cozinhasolidaria

36. Campanha de Solidariedade Ativa da Rede Emancipa

A Rede Emancipa é um movimento social de educação popular com 14 anos de história, realizando cursinhos populares pré-vestibular em periferias do Brasil. Com a crise sanitária iniciada em 2020, iniciou trabalhos de solidariedade ativa. No ano passado, foram mais de 1,4 mil famílias atendidas com cestas básicas, kits de limpeza, fraldas, máscaras, cobertores, botijões de gás, custeios de medicação, livros e revistinhas infantis. Agora, o movimento retoma a campanha.

Como doar? Pela vaquinha virtual (clique aqui).

Solidariedade na quebrada: “Se não fossem as campanhas, o número de vítimas seria muito maior”

Reportagem de Pedro Ariel Salvador

Assistente de edição de vídeo: Vitori Jumapili. Edição de áudio por Paulo Cruz. Revisão de texto por Thiago Borges

“Como a gente vai fortalecer a imunidade se não tem uma alimentação saudável?”, questiona Sandra de Moura, coordenadora e moradora do Jardim da União, ocupação por direito à moradia que abriga mais de 500 famílias no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo. A ocupação existe desde 2013, emergindo diante da alta dos aluguéis.

Sandra chama atenção para os governantes, que não têm um olhar cuidadoso pra quem tá nas margens – pelo contrário, estão de olho nas eleições.

Ela é a entrevistada do terceiro episódio da série sobre campanhas nas periféricas realizadas pelo Quebra das Ideias, o podcast da Periferia em Movimento. Ouça no anchor, no spotify ou clique abaixo:

O Jardim da União surge em 2013 com a alta do aluguel, sendo habitado principalmente por trabalhadoras e trabalhadores informais. Com o começo da pandemia, Sandra também se envolveu em várias campanhas de arrecadação e distribuição de produtos de necessidade básica para famílias do seu entorno.

Mães e pais solo são as pessoas que mais encontram dificuldades para conseguir emprego e manter suas famílias. Por isso, em meados de outubro de 2020, Sandra se juntou à parceiras para criar a “Casa da Mãe Solo”, iniciativa voltada para o apoio dessas famílias da ocupação e que pretende dar cursos profissionalizantes de diversas áreas, além de ajudar jovens e adolescentes a conseguirem seu primeiro emprego.

Como o coletivo ainda está se iniciando, ainda tem muito a se fazer. Para saber como ajudar, entre em contato através das redes sociais da ocupação (clique aqui) ou da própria Sandra (aqui). A ocupação também está com uma vaquinha aberta para ajudar mais de 500 famílias residentes. Colabore aqui.

Este conteúdo faz parte do Quebrada Comunica, projeto de fortalecimento do campo da comunicação periférica da cidade de São Paulo idealizado pela Rede Jornalistas das Periferias em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum, Uneafro Brasil e o Fórum de Comunicação e Territórios.

Cabeça e Estômago: Cotidiano de pessoas em situação de rua

Entrevistas e transcrição: Jeniffer Gomes, Isabelle Raymundo, Luana Gonçalves e Leonardo Siqueira. Texto e edição por Leonardo Siqueira.

Cabeça

Tarde de segunda-feira, Dia dos Mortos no bairro da República. Um grupo de ciclistas pedala chacoalhando as braçadeiras enquanto viram o guidão de leve para não pegar na idosa que obstrui o caminho, no chão e coberta da canela a cabeça, que gira para acompanhar a velocidade das bicicletas. No outro lado da rua em frente ao mercado, um grupo guarda suas compras nas mochilas enquanto caminham em frente a um homem, uma mulher, um bebê e papelões. Mas sem perder o passo vão em direção à praça Roosevelt, e no caminho, ali na esquina entre a Martins Fontes e a Avenida São Luís, uma moradora de rua vende livros.

Gil Brasil cumprimenta a todos que passam em frente aos seus livros e agradece depois de começar um monólogo quando o cliente pergunta se é de graça.

Em São Paulo, o Censo da População em Situação de Rua de 2019 estimou que quase 25.000 pessoas estão sem um teto, e há 1.385 tetos ociosos, imóveis abandonados ou subutilizados segundo o Plano Municipal de Habitação. O ócio é o que se vende para a população paulistana sobre quem mora na rua. O desemprego é a imagem da negação ao trabalho. Na organização que estamos inseridos, ter um ofício é fazer parte da estrutura e do sistema identitário. Abdicar desse sistema deixa o cidadão mais distante do seu poder cívico, então após perder o posto o ser humano começa a se ver sem uma função social assim como diversos imóveis na cidade.

“Eu tinha um cartaz aqui, que me ajudava a disfarçar as condições né, de morador de rua, pra não dar tanta nó em goela. O pessoal acha que a gente é morador de rua, mas é vagabundo. Eu não tenho mais”

Gil Brasil, 51 anos, migrante do interior paulista

O Movimento Nacional sobre a População em Situação de Rua mostrou os principais motivos declarados pelas pessoas para que morassem nas ruas:’o desemprego, os conflitos familiares (50%) e o uso abusivo de álcool e outras drogas (33%).

A população em situação de rua dialoga com a sociedade para viver. Assim, os meios de exploração dessa superestrutura ficam evidentes em quem está mais vulnerável. O indivíduo é reprimido pela cultura dominante, pela sua condição social e psicológica. A desigualdade social tem forte impacto na formação de crianças e adolescentes.

“Eu cheguei em São Paulo com 11 anos fugindo do interior, perdi minha mãe com 8 anos por um câncer, muito religiosa, judia ortodoxa. Meu pai foi assassinado quando eu tinha 14 anos…”, diz Gil, que ajeita a máscara enquanto fala.

A maior cidade da América Latina se estrutura até o centro expandido e, para quem tem mais recursos e poder, a periferia paulistana é praticamente invisível pelo poder público. O êxodo rural (movimento de trabalhadores migrando para outro lugar para ter “melhores condições”) contribuiu para o grande crescimento irregular da cidade. Longe das zonas centrais, o crime organizado aparece reivindicando o poder ausente do estado, criando um grupo de influência para cada extremo de São Paulo.

Sentada em frente a Biblioteca Mário de Andrade, Gil conta quando fugiu da antiga Fundação Estadual para o Bem-estar do Menor (FEBEM), hoje Fundação CASA. Conheceu um garoto que gostou, conta ela sorrindo. Tinha ele como uma companhia. Mais tarde, a mando de um preso do Carandiru, o garoto foi queimado vivo. “Ele tinha 16 anos e eu tinha quase 15”, conta.

Um dos motivos para a população de rua de São Paulo ficar próxima ao centro se deve ao fato de ter maior “visibilidade” e recursos do que nas áreas extremas. Mesmo o acolhimento sendo quase escasso, o ser humano tem maior chance de sobrevivência perto do marco zero da capital.

Da livraria sobre a pedra tem de Mario Vargas Llosa até livros sobre revoluções, encadernados sobre lógica a exemplares de aromaterapia. Um senhor secando os livros pergunta se ela não faz o exemplar por R$ 1. Gil responde que não e explica o motivo: “o mínimo é…”. Ele se vira e segue seu caminho em direção à Câmara Municipal.

“Considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória” (Art.1º do Decreto Nº 7.053 de 23 de Dezembro de 2009).

O grupo sem moradia é um universo heterogêneo de histórias vindas de todo o Brasil que compartilham aspectos em comum, como a desigualdade. O brasileiro foi ensinado a tipificar esses grupos e ver a desigualdade como banal, a sobrevivência como ordinária, e a violência como normal.

Em 2020, a fragilidade dos conceitos neoliberais (que defendem a absoluta liberdade do mercado com pouca intervenção do estado) ficaram mais evidentes, não só pela influência na crise de 2008 nos Estados Unidos que atingiu o Brasil em meados de 2012, mas pela pandemia do coronavírus.

As alternativas políticas para a crise como a eleição do Jair Bolsonaro para a Presidência em 2018 mostram um afogamento da classe dominante no período. Essa classe possui um estado democrático de direito que é exclusivamente dela, enquanto as outras classes (dominadas) possuem um estado de exceção.

Em 2016, estudos da Oxfam mostraram que 1% da população mais rica do mundo possuía a mesma riqueza que 99% do restante. A parcela mais rica na atual organização é agente principal da causa da precariedade da situação de pessoas sem teto.

“Todos esses processos de construção do País em cima de dominação e violência são muito profundos. Acho que isso se reflete numa grande pobreza que a gente tem hoje no Brasil, e que está cada vez maior”

Beatriz Swenck, cientista social e doutoranda em Sociologia

A configuração atual de família e trabalho vieram de séculos de manutenção de um modo de vida exclusivo, opressor. A pessoa em situação de rua adota a ideia de culpabilização, que está naquela situação integralmente por escolhas que fez, que chegou aquele ponto por perder oportunidades, por não ter estudado, que é pobre por não ter usado a cabeça. O ser humano passa a se enxergar como insuficiente, e compra a ideia de ser alguém degenerado, se isola com humilhação e vergonha, se afastando dos laços familiares.

“A própria relação com o vício acaba ficando conveniente para que essa situação ocorra. Hoje para a sociedade é difícil viver com um dependente químico em casa. Isto é bastante relativo, já que alguns que foram rejeitados pela família. E tem a gravidez indesejada também”, diz Rafael Araújo, que morou na rua e hoje tem uma residência em São Mateus.

A sociedade brasileira é estruturada por laços familiares trágicos. A colonização europeia subjugou qualquer outra etnia que não fosse à própria, violentando e assassinando Tupis-guaranis, Aruaques, Caraíbas, e no que hoje seriam Luandenses (Angolanos), Beninenses, Quelimanenses (Moçambicanos) e outros.

O projeto DNA do Brasil mostrou através de análises mitocondriais que 70% das mães que deram origem a população brasileira são africanas e indígenas, e 75% dos pais são europeus. A família brasileira surgiu de uma sociedade de estupros e violência. O País buscou embranquecer a população e, no século 20, qualquer relação com a cultura afro foi criminalizada.

Com Getúlio Vargas no poder o Brasil quis criar uma identidade nacional, tentando unir a cultura africana, europeia e americana, sustentado por Gilberto Freyre, que inaugurou a sociologia sobre a identidade brasileira. Casa Grande e Senzala (1933) mostra a relação euroafricana e deslegitima o caráter racista do Brasil, criando uma ideia branca de harmonia, utópica na sociedade brasileira.

Em 2019, o Censo da População Em Situação de rua mostrou que, 70% da população de rua era preta e 15% eram mulheres. Porém, 50% dos casos de violência contra a população de rua registrados foram contra mulheres.

O estado democrático de direito é seletivo, mulheres são desamparadas pela sociedade e pelo estado, suscetíveis à violência física e a injustiça, na justiça brasileira a maioria são homens e brancos.

“A mulher sem teto está mais vulnerável que um homem. Sem um lar para assegurá-la, ela está exposta a todo tipo de violência possível, a ajuda não é oferecida a elas da mesma forma que as pessoas com moradia em condições melhores de vida, sem documentos é mais difícil de se fazer um boletim de ocorrência e sua palavra tem menos credibilidade que de outras pessoas com casa. Assim, muitas desistem de ao menos fazer a ocorrência formal, impossibilitando a punição ao agressor. Em nossa sociedade já existe a ideia de fragilidade feminina. Como estas mulheres estão invisibilizadas, elas são alvos fáceis para agressores que por vezes são seus próprios companheiros”

Larissa Maria, acadêmica em Psicologia

Há diversas influências que contribuem a pessoa ir à rua, entre relacionamentos abusivos psicológicos e agressivos, falta de apoio, recursos com gravidez indesejada e preconceito familiar. Um reflexo da sociedade e de quem não abre mão do poder.

“A gente sabe também que quanto mais vulnerável maior a chance de uma mulher sofrer algum tipo de violência de gênero, violência sexual, enfim, então eu acho que é muito importante que a gente perceba essa parcela da população e que ela tem necessidades específicas, e entenda também a fragilidade das mulheres em outros contextos, de acesso à moradia, acesso à terra, acesso ao trabalho com uma remuneração decente, eu acho que é importante que se olhe pra isso”, diz Beatriz.

O dia vai indo embora devagar, o céu vai escurecendo e pelas ruas da capital as pessoas passam e começam os seus rolês sorridentes com uma garrafa na mão. A metros dali, uma família conversa com o pai segurando uma taça de vinho enquanto a criança brinca sobre a mesa, sentados a um restaurante em frente ao jardim da biblioteca Mário de Andrade. No barzinho, o músico acústico toca Rosa de Hiroshima e se ouve o dedilhado passando por um senhor que anda com a marmita na mão dançando até próximo à rua Augusta.

Gil está sentada e comenta sobre quando conheceu Paris, Espanha, Alemanha, conta sobre o muro de Berlim e começa a mostrar um livro em alemão, no qual lê com sotaque agressivo e típico. Viveu 26 anos na Europa após ter sido contrabandeada em uma operação de tráfico humano aos 18 anos.

Antes, foi pega por um dos carros da polícia com cores preto e vermelho, e mais tarde fugiu da FEBEM perdendo muito sangue. Conseguiu sobreviver. “Já vi situações na própria FEBEM onde menores eram assassinatos dentro da instituição e os corpos eram jogados pra fora “.

Além das viagens, tem outra paixão que é a literatura, ganhou livros e aos poucos foi revendendo, com vezes dividindo o lucro com alguns estabelecimentos doadores.

Gil é uma mulher trans no País onde mais ocorre assassinatos contra transexuais, segundo a ONG Transgender Europe. E 90% da população trans já recorreu à prostituição em algum momento da sua vida, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O grupo é marginalizado e quase não possui oportunidades.

“Muitas famílias abandonam seus filhos e parentes LGBTQIAP+ por vergonha e por preconceito. Essas pessoas acabam vivendo em abrigos ou até nas ruas. É preciso um trabalho continuou de desconstrução desses preconceitos para que essas pessoas possam se sentir mais confortáveis em seus próprios corpos, para que haja mais aceitação dentro do seio familiar e no mercado de trabalho”, conta Larissa Maria, que além da Psicologia, é ativista no movimento Anjos da Noite em Arthur Alvim.

O “Estado de Respeito” não acolhe tão bem e nem com o mesmo respeito os imigrantes e refugiados vindos de países como o Haiti, a Bolívia e a Venezuela. Muitos são encontrados em situação informal e sem moradia. Pela burocracia do Estado para se tirar documentos, essas pessoas ficam dias, meses e anos em situação precária. Participam de movimentos de ocupação e tentam de alguma forma se inserir no ambiente de trabalho.

“A xenofobia é um grande fator para o desemprego de refugiados e imigrantes, pessoas de países de terceiro mundo sofrem com o preconceito quando migram para outros países, e no Brasil não é diferente. Sul-americanos e africanos migram para grandes cidades brasileiras em busca de uma vida melhor e encontram, muitas vezes, preconceito e desemprego. Com pouca experiência no mercado de trabalho e pouco formação acadêmica, esses refugiados encontram pouquíssimas possibilidades de emprego e acabam gerando pouquíssima renda, mal conseguindo se sustentar; junto do preconceito, às vezes até mesmo com a dificuldade de encontrar um imóvel e podendo ficar desabrigados”, continua a psicóloga em formação.

O psicológico da pessoa em situação de rua é afetado por inúmeros fatores sociais, temporais e culturais que contribuem como barreiras para o seu desenvolvimento pessoal.

Estômago

Andando só com uma coberta no ombro, Júnior vem com uma feição de dor e caminha lento, com passos pesados. Ele chega a dizer que sua barriga está doendo muito. O frio deixou o corpo fraco então ele buscou remédios para melhorar de alguma forma. Nos seus 46 anos se enxerga em sobrevivência “Se você pegar uma doença ninguém vai te ajudar não”, diz, como se o cidadão o visse como um criminoso em potencial.

Júnior fala sobre o quão grande é a escolha que se faz quando mora na rua, e que cada movimento pode significar a sua vida. “Eu tava com fome! Preferi comprar o remédio que a comida que eu queria”, explica o potiguar, que veio de carona para o Sudeste pulando de uma cidade pela outra e está há 15 anos no centro de São Paulo. “Vou pra onde? Aqui que é bom, aqui que é o movimento”.

Ele conta que é melhor ser pedinte que fazer coisa errada, mesmo assim tem que ouvir algo como “vai procurar o que fazer!”. E completa “É uma humilhação da… a pessoa que mora em rua é discriminada!”.

Na gestão do ex-prefeito João Doria, a Prefeitura passou a tirar os pertences de moradores de rua.

“Não pode, mas eles tiram. Não sei nessa nova gestão, mas na época do Doria ele mandava, os caras perdiam documentos a rodo, porque não dava tempo deles levantarem e pegar as coisas. Assim, o que eles não podem fazer é casa na calçada, tipo sofá, guarda-roupa, não pode. Então, se passar e levar, ok, vai levar porque não pode, mas pertences como documentos, roupas, produtos de higiene, a gente já viu muitas vezes levando sem dó – e isso não pode, mas infelizmente fazem”

Natália, antiga orientadora do SEAS (Serviço Especializado de Abordagem Social) serviço terceirizado pela Prefeitura

A Prefeitura pouco fez para a integração dessa comunidade de volta ao âmbito social. Em 2017, depois da madrugada mais fria do ano, moradores da Sé são acordados com jatos de água fria.

“Aconteceu sim algumas vezes e a gente não tinha o que fazer. Eles jogavam mesmo, foi totalmente desumano, totalmente sem noção, mas jogavam. A gente ficava muito brava, né?! Porque isso é muito errado, porque eles estavam dormindo. Se os caras chegassem neles e falasse ‘olha, você pode se levantar aqui para gente lavar por favor’, eles iam levantar. Mas não fizeram isso, chegaram jogando água. Sem palavras. É desumano”, conta Natália.

Humano, o corpo na falta de nutrientes procura as reservas de glicose para repor a energia. Com o estoque de glicose baixo, o organismo então consome as proteínas necessárias para a formação dos músculos e depois usa a gordura para continuar em funcionamento. Se a alimentação for feita de forma errada por um longo período, o estoque fica baixo, podendo prejudicar a recepção da contração muscular e de estímulos nervosos.

“O medo, a busca por abrigo, por alimento, causam muito estresse. Toda a incerteza que a rua proporciona ao ser humano adoece a mente e esses traumas podem ser levados para o resto da vida. Essa situação leva muitos até mesmo a cometer suicídio”, aponta Larissa.

Na noite que tem a trilha sonora de buzinas e xingamentos, Gil folheia seu livro recordando que no início da pandemia da covid-19 a venda de livros aumentou. Mesmo sem ter acesso ao auxílio emergencial pela burocracia, sem ter chance de fazer isolamento social ou de evitar o vírus. Gil Brasil se isola a 8 anos como muitos outros na cidade de São Paulo, sabe que em São Paulo Deus hoje é uma nota de 200 e nos seus 51 anos de muitas barreiras defende o seu “êxtase da liberdade de expressão”.

Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente

Por Paulo César Pedrini*

Essa canção de Leon Giaco imortalizada na voz da Matriarca da Grande Pátria Latinoamericana, Mercedes Sosa, é uma das que expressam com maior fidelidade uma das mais belas dimensões humanas, a solidariedade.

Celebramos a Páscoa cristã num dos momentos mais difíceis e dolorosos de nossa história. Convivemos com uma dor que parece não ter fim. Nesse momento, já tivemos quase 3 milhões de vidas perdidas em decorrência da covid, sendo que mais de 300 mil no Brasil. Dor porque nossos governantes parecem não se preocupar com o verdadeiro sentido da política: a busca do bem comum. Sabemos que muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas.

Se tivéssemos de fato como objetivo principal a defesa da vida e da dignidade humana, teríamos tido um lockdown com funcionamento apenas dos serviços essenciais (e não com os governantes mudando a bel prazer através de decretos o que é essencial), teríamos testagem e vacinação em massa e também teríamos a garantia de uma renda emergencial, ou seja, isolamento social com responsabilidade social.

O tríduo pascal se inicia com a celebração do Lavapés e da última ceia. Ali, Jesus nos mostra o verdadeiro sentido da vida: o serviço ao outro , sobretudo os que mais precisam quando mais precisam.

A morte na cruz nos lembra o martírio de Jesus hoje, na população de rua, nos povos indígenas, nos quilombolas, nas comunidades periféricas. Morte essa provocada pelo vírus, pela fome mas principalmente pela indiferença.

A ressurreição é o ponto central da fé cristã e ela significa a vitória da vida sobre a morte. Mas essa luta entre a vida e a morte é cotidiana. Cabe a nós saber de que lado da história queremos estar.

Celebrar a Semana Santa para além dos rituais é renovar o nosso compromisso com a defesa da vida e da dignidade humana. Nosso inesquecível mestre dom Paulo Evaristo Arns dizia: “o Cristianismo não é uma teoria para se saber, mas uma proposta prática para se viver”.

Vale lembrar que a solidariedade não é uma dimensão religiosa e sim uma dimensão humana, e sabemos que historicamente ela não vem dos que têm muito para os que têm pouco. Ela quase sempre vem dos que têm pouco para os que não têm nada.

Sejamos capazes de celebrar e viver a Semana Santa sendo fiéis ao exemplo de Jesus, que deu a sua vida para que todos tenham vida. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”.

Que estejamos vigilantes e atentos para combater tudo aquilo que gera dor, sofrimento e morte ao nosso povo. A luta da vida contra a morte é cotidiana e, para sermos dignos de ser chamados cristãos e mesmo de seres humanos, é necessário que façamos o nosso papel que é fazer com que a Vida esteja sempre em primeiro lugar.

*Paulo Cesar Pedrini, morador da Vila Maria (zona Norte de São Paulo), é coordenador da Rede de Apoio às Famílias de Vítimas de Covid-19 e da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo; integrante da Frente Interreligiosa Dom Paulo Evaristo Arns, da Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura – ACAT Brasil e dos sindicatos Apeoesp e Sinpeem. É professor de História e Sociologia na rede pública de ensino

Edital apoia projetos de mulheres negras com R$ 1,3 milhão

Com inscrições até a próxima quarta-feira (7/4), a terceira edição do edital Elas Periféricas vai selecionar cerca de 60organizações e coletivos liderados por mulheres negras com origem e atuação em territórios ou contextos periféricos em todo o País. Clique aqui para participar.

Promovido pela Fundação Tide Setúbal em parceria com o TikTok, o edital tem o objetivo de fortalecer e aprimorar as capacidades dessas iniciativas e contribuir para o desenvolvimento das periferias urbanas brasileiras nos quais elas estão inseridas.

O programa proporcionará investimento financeiro, apoio técnico e mentoria para cerca de 60 organizações por um período de 12 meses. Para cada selecionada, será repassado o valor de até R$ 20 mil, totalizando um aporte de até R$ 1,3 milhão.

Para se inscrever no edital, as organizações e coletivos precisam atender os seguintes requisitos: ter mulheres negras da periferia em seu quadro de lideranças; ter origem e atuação em periferias ou contextos periféricos (contextos sociais urbanos que estejam à margem de políticas públicas e oportunidades de produção e circulação de bens materiais e simbólicos); não ter finalidade lucrativa; e ser uma organização diretamente administrada e executada pelas proponentes.

Ao realizar a inscrição, a candidata deve apresentar um plano para o desenvolvimento de sua organização ou coletivo alinhado aos principais objetivos e desafios de seu contexto.

O processo de seleção durará até o fim de julho e englobará quatro fases seguidas: 1) credenciamento e envio do formulário de inscrição; 2) apresentação do plano detalhado de desenvolvimento da organização ou coletivo; 3) realização de entrevistas; 4) análise do comitê de avaliação, composto por especialistas nas temáticas do edital e por representantes da equipe da Fundação Tide Setubal e do TikTok.

Solidariedade na quebrada: “As ações de agora são frutos de uma rede que sempre existiu”

Roteiro e apresentação de Laís Diogo. Revisão por Thiago Borges. Edição de áudio: Paulo Cruz. Versão para vídeo: Pedro Ariel Salvador e Vitori Jumapili. Foto em destaque: Ana Pra Rua

Quem nunca chamou parentes e amigos pra bater uma laje ou compartilhou um bolo com a vizinha assim que ficou pronto? Das antigas lutas por asfalto ao enfrentamento da fome na crise do coronavírus, a solidariedade na busca pela sobrevivência sempre esteve presente nas periferias.

“As ações de agora são frutos de uma rede que sempre existiu”, diz Wesley Silva, o Lelo. A história dele é a segunda da série sobre campanhas nas periféricas realizadas pelo Quebra das Ideias, o podcast da Periferia em Movimento.

Ouça no anchor, no spotify ou clique abaixo:

Articulador e Educador social no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo) Lelo é co-fundador do Corre Coletivo, iniciativa que tem se organizado para ajudar minimamente as famílias mais afetadas pela falta de emprego, auxílio emergencial e comida no prato.

O grupo juntou outros artistas para produzir materiais informativos e criativos sobre a prevenção ao coronavírus. Em 2020, a Periferia em Movimento fez uma matéria sobre a história em quadrinhos “Inimigo Invisível”. Você também pode acessar e baixar os materiais aqui.

Este conteúdo faz parte do Quebrada Comunica, projeto de fortalecimento do campo da comunicação periférica da cidade de São Paulo idealizado pela Rede Jornalistas das Periferias em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum, Uneafro Brasil e o Fórum de Comunicação e Territórios.

“Guerra às drogas” consome grana suficiente pra comprar 100 milhões de doses de vacina contra covid-19

Foto em destaque: Agência Brasil

R$ 5,2 bilhões. Esse é o montante que o sistema de justiça criminal dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro despejaram na manutenção da política de proibição das drogas no ano de 2017. A soma seria suficiente para comprar mais de 100 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 ou custear por um ano a renda básica no valor de R$ 600 mensais para mais de 720 mil famílias.

É o que revela o relatório “Um Tiro no Pé: Impactos da proibição das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e São Paulo”, divulgado nesta segunda-feira (29/3). Para acessar o relatório completo clique aqui.

O estudo é a primeira etapa do projeto “Drogas: Quanto Custa Proibir”, iniciativa inédita do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) que investiga os custos, em valores monetários, da proibição das drogas no Brasil. Essa primeira fase detalha as despesas governamentais das 7 instituições que compõem a linha de frente do proibicionismo das drogas.

Para isso, foram pesquisados os gastos orçamentários da Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, Sistema Penitenciário e Sistema Socioeducativo na aplicação da Lei de Drogas (Lei 11.343/2006) nos 2 estados, totalizando 14 instituições estudadas.

A equipe de pesquisa constatou que, em uma estimativa conservadora, foram gastos ao menos R$ 5,2 bilhões, sendo mais de R$ 1 bilhão no Rio de Janeiro e cerca de R$ 4,2 bilhões em São Paulo, para sustentar a proibição das drogas e travar guerra contra o varejo do tráfico nas favelas e periferias ao longo de um ano.

“Em tempo de pandemia, teto de gastos, crise econômica e números alarmantes de homicídios e pessoas encarceradas, é urgente discutir o custo-benefício das atuais políticas públicas de segurança e justiça. A avaliação destes gastos passa, necessariamente, por questionar o papel central que a proibição das drogas ocupa na definição das prioridades do Estado”, explica Julita Lemgruber, coordenadora do CESeC e coordenadora geral do projeto.

“O projeto Drogas: Quanto Custa Proibir parte da premissa que o peso orçamentário da execução da Lei de Drogas sobre os cofres públicos do país praticamente não é discutido. O número alarmante de mais de R $5,2 bilhões gastos em um ano por apenas 2 estados, revelado por essa pesquisa, deve servir como alerta a gestores públicos e legisladores quanto às suas escolhas políticas, principalmente, durante uma crise sanitária sem precedentes, como a que estamos vivendo agora”, continua Julita.

Como funcionou a pesquisa?

Para chegar aos resultados, os pesquisadores seguiram 3 passos:

1) Coleta de dados, através do Portal da Transparência, sites das instituições avaliadas e 122 pedidos via Lei de Acesso à Informação, ferramenta fundamental para a realização da pesquisa;

2) Construção de indicadores para estimar o percentual de trabalho de cada instituição estudada dedicado à execução da Lei de Drogas;

3) Aplicação dos indicadores aos gastos obtidos no levantamento de dados sobre cada instituição.

Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro foram selecionados como objeto de análise por abrigarem os maiores centros urbanos e exercerem grande influência nas políticas de segurança pública aplicadas no País.

São estados que apresentam altas taxas de encarceramento e de mortes decorrentes de operações policiais, em grande medida como resultado do modelo de “guerra às drogas” que direciona a repressão armada a áreas de favelas e periferias.

Apesar da generalizada falta de transparência e má qualidade dos dados sobre gastos públicos e atividades do sistema de justiça criminal, foi possível, ainda que com dificuldade, a elaboração deste relatório de pesquisa sobre os dois estados.

O ano de 2017 foi escolhido como o ano base de referência para a pesquisa porque em 2018 houve eleições estaduais e federais, além da intervenção militar no Rio de Janeiro, fatores conjunturais que poderiam gerar distorções nas despesas. Embora os dados apresentados no relatório sejam referentes ao ano de 2017, todos os valores foram atualizados pelo IPCA para novembro de 2020.

Dinheiro mal gasto

Para o CESeC, além de questionar a ineficácia dos gastos públicos com a proibição das drogas, a pesquisa Um Tiro no Pé mostra o ônus, a seletividade e a ineficácia do modelo proibicionista ao revelar quanto do orçamento governamental é direcionado a uma política que causa tanta dor e violência.

“A proibição das drogas não reduz o consumo e o comércio de drogas, alimenta a violência e a corrupção dos agentes do estado, e custa muito caro aos cofres públicos, drenando recursos que poderiam ser melhor investidos, inclusive na área de segurança”, complementa Julita Lemgruber.

“Os gastos com a proibição revelam as consequências da escolha política pela ‘guerra às drogas’. Não apenas o proibicionismo institui como alvo prioritário da criminalização pessoas negras e pobres moradoras de favelas e periferias, como impõe, a essa mesma parcela da população, condições de vida precárias e sem acesso a direitos básicos”, aponta Renata Neder, pesquisadora sênior do projeto Drogas: Quanto Custa Proibir.

Inclusive, “a brutalidade das operações policiais no Rio de Janeiro, mesmo durante um período de crise sanitária grave como o atual, levou o Supremo Tribunal Federal a determinar a suspensão das operações policiais durante a pandemia”, completa Renata.

A partir do levantamento sobre a aplicação orçamentária e os gastos do sistema de justiça criminal, a equipe de pesquisa fez um exercício comparativo inicial pensando como esses recursos poderiam ser redirecionados para investimentos sociais como escolas, hospitais e programas de renda básica.

Entre as alternativas apresentadas para o investimento do gasto anual com a proibição das drogas, estão a compra de 72 milhões de doses da vacina Coronavac, suficientes para vacinar 36 milhões de pessoas em São Paulo, e 36 milhões de doses da vacina Astrazeneca, capazes de vacinar 18 milhões de pessoas contra a covid-19 no Rio de Janeiro; o custeio da educação de 840 mil adolescentes em SP e 252 mil no Rio de Janeiro por um ano; o custeio de renda básica para 583 mil famílias em SP e 145 mil famílias no Rio.

Nas próximas etapas do projeto, que tem duração prevista de 3 anos, a meta é aprofundar as análises sobre os custos da proibição para as áreas da educação, saúde e territórios. 

Guerra às drogas e genocídio

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 houve mais de 65 mil homicídios no país, sendo 72,4% por arma de fogo e 75,5% das vítimas eram negras. No mesmo ano, 5.159 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções policiais que, em sua maioria, ocorrem em regiões de favelas e periferias tidas como pontos de varejo de drogas.

No Rio de Janeiro foram 1.127, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ), e 941 em São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado. As vítimas de homicídio pela polícia eram, majoritariamente, pessoas negras, sendo 77,1% no RJ e 64,6% em SP, enquanto negros representavam 52% da população do Rio e 34,8% de SP, segundo o IBGE. 

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), em 2017, o tráfico de drogas representava 29% dos crimes de que as pessoas presas eram acusadas; entre as mulheres, porém, essa proporção chegava a 59%, praticamente o dobro do percentual masculino (30%).

No Brasil, a população encarcerada neste ano era de 704.576 pessoas, sendo que deste total 64,5% eram negros, contra 54,3% de pessoas autodeclaradas pretas e pardas na população adulta do país. A maioria dos presos por crimes relacionados à Lei de Drogas, era réu primário, portava pouca quantidade de drogas e não carregava arma de fogo, e mesmo assim, o Estado optou pelo cárcere fechado.

Esta também é a realidade do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) em que 63% dos adolescentes e jovens com medidas de restrição e privação de liberdade eram negros, e 27% dos atos infracionais estavam relacionados ao tráfico de drogas.

Catálogo reúne 28 fornecedoras de ovos de Páscoa nas periferias

Por Thiago Borges. Foto em destaque: Atelier Chef Diventury

Com o feriado da Páscoa se aproximando, a Bora Lá – Agência de Comunicação e Marketing Popular publica um catálogo especial com os cardápios, preços e contatos de 28 negócios localizados em bairros das zonas Sul, Norte, Leste e Oeste de São Paulo. O objetivo é dar maior visibilidade e gerar renda a mulheres que fabricam e fornecem ovos de chocolate caseiros.

A ação conta com a parceria na realização e articulação da Kinah Gestão de Pessoas, da Macambira Sociocultural e da Rede Nóis Por Nóis.

Confira o catálogo clicando aqui ou abaixo:

Você também pode acessar as informações via instagram da Bora Lá:

Essa é a segunda edição do projeto, que foi idealizado pela Bora Lá e iniciado em 2020.

“Percebemos as dificuldades causadas pela pandemia aos pequenos negócios locais, que em sua grande maioria são geridos por mulheres provedoras de renda em suas famílias e que esse ano tiveram novamente suas vendas fortemente reduzidas diante o difícil cenário econômico pandêmico”, explica Alânia Cerqueira, da Macambira Sociocultural.

“Infelizmente todo o País, e principalmente as periferias, vem sofrendo fortemente os impactos sociais, econômicos e afetivos dessa pandemia. Precisamos identificar alternativas possíveis de enfrentamento e solidariedade nos territórios que envolvam inclusive o apoio da iniciativa privada e suas ações sociais como institutos e fundações”, continua ela.

Das 28 participantes, 20 se autodeclaram pretas ou pardas. Também há 1 pessoa trans não-binárie. A maior parte dos negócios (20) fica em periferias da zona Sul de São Paulo.

Juliana Mendes da Silva, da Juliana Chocolates e Cia (Foto: Divulgação)

Para Juliana Mendes da Silva, que tem 32 anos e mora no Jardim São Luiz (zona Sul de São Paulo), a divulgação é muito importante para manter de pé os pequenos empreendimentos.

“Ano passo obtive uma venda para empresa através desse catálogo e esse ano eles retornaram, sou muito grata”, conta ela, que trabalha com ovos de chocolate há 15 anos com a marca Juliana Chocolates e Cia.

“Entre tantas mulheres produzindo ovos, é um orgulho estar entre elas”, destaca Elaine Souza, que tem 47 anos e mora na Vila Prudente (zona Leste). Ela começou a fazer ovos aos 14 anos para vender aos amigos adolescentes da rua, até que se especializou na área. “Uma vez, um senhor me falou que ia ganhar dinheiro com chocolate”, diz ela, que hoje mantém o Batuque na Cozinha.

Elaine Souza, do Batuque na Cozinha (Foto: Divulgação)

Com dinheiro dos doces, Elaine se formou em direito mas não chegou a exercer a profissão. Após ficar 5 anos dividindo o tempo do trabalho em uma empresa com a confecção dos chocolates, desde o início da pandemia ela se dedica exclusivamente a isso e aposta nas pessoas que deixaram para comprar as lembrancinhas para última hora. “É bacana saber que alguém da zona Leste pode acessar esse catálogo e me encontrar”, conclui.

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