Catálogo de Quebrada reúne 80 pequenos negócios periféricos com opções de presentes para o Natal

Imagem de capa: ilustração Zerlo

O fim de ano está aí. E, para quem busca um presente para pessoas especiais em sua vida, a Bora Lá apresenta uma lista com opções originais, de qualidade e que têm em comum o fortalecimento de pequenos negócios periféricos. É o Catálogo de Quebrada, idealizado em 2020, no começo da pandemia, para apoiar mulheres que trabalhavam com ovos de páscoa artesanais. Desde então, a agência de comunicação popular tem se articulado com outras redes e coletivos para a elaboração voluntária dessas listas.

O catálogo atual traz 80 empreendimentos de todas as regiões de São Paulo e em diferentes categorias: Moda e acessórios; Casa e decoração; Saúde, bem-estar e autocuidado; Papelaria; Presentes artesanais; Alimentos e bebidas; e alimentos veganos e saudáveis.

Acesse a lista completa no instagram aqui, baixe o arquivo aqui ou confira abaixo.

Massacre no Baile da DZ7: 2 anos depois, familiares protestam e vídeos analisam ação policial

Foto em destaque: Agência Brasil

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, de 16 anos; Bruno Gabriel dos Santos, 22; Eduardo Silva, 21; Denys Henrique Quirino da Silva, 16; Mateus dos Santos Costa, 23; Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16; Gustavo Cruz Xavier, 14; Gabriel Rogério de Moraes, 20; e Luara Victoria de Oliveira, 18.

Nesta quarta-feira (1/12), completam-se 2 anos que essas jovens vidas foram ceifadas pelo Estado de São Paulo. Naquela madrugada de 2019, os garotos e a menina participavam do Baile da DZ7, conhecido pancadão que acontece em Paraisópolis (zona Sul paulistana), quando a multidão foi surpreendida por uma ação violenta do 16º Batalhão da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP).

Familiares das vítimas prepararam uma agenda de atividades. A partir das 13h, com concentração no Vale do Anhangabaú, acontece uma caminhada e panfletagem pelo centro com a participação de movimentos sociais.

Na sequência, às 16h, o Padre Julio Lancelotti celebra uma missa na Catedral da Sé em homenagem a 9 jovens que morreram. Familiares pedem que participantes compareçam às atividades com roupas pretas.

Em junho deste ano, 9 PMs foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. As mortes teriam acontecido acidentalmente, em decorrência de pisoteamento.

Segundo as famílias, policiais trouxeram uma série de inverdades em suas justificativas e que testemunhas corroboram a narrativa dos familiares, assim como vídeos mostram que jovens não resistiram às abordagens.

A Defensoria Pública questionou e apontou intenção de matar. O Ministério Público apresentou denúncia, com a alegação de que policiais agiram por motivo torpe. Em julho, o Tribunal de Justiça de São Paulo aceitou a denúncia e tornou 12 policiais envolvidos na ação em réus.

Série de vídeos

Os panfletos contêm um QR code que direciona à série de “Paraisópolis: 3 atos, 9 vidas”, um conjunto de vídeos que apresenta os resultados de uma análise multidisciplinar sobre as mortes durante ação do 16º Batalhão da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP).

A análise foi feita pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), o Núcleo Especializado de Infância e Juventude (NEIJ) e o Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos (NECDH) da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e por familiares das vítimas.

Confira abaixo:

Campanha de Natal: Escola Feminista Abya Yala e Periferia em Movimento arrecadam recursos para 50 famílias

As consequências da pandemia seguem muito presentes nas quebradas. Reportagem desta semana publicada pelo UOL TAB revela, inclusive, pessoas que chegam a unidades básicas de saúde doentes de fome.

Para amenizar a situação de algumas pessoas, a Escola Feminista Abya Yala lançou a Campanha de Natal 2021 e conta com a parceria da Periferia em Movimento na divulgação e arrecadação. Serão 50 famílias chefiadas por mulheres que receberão o apoio com uma cesta de Natal contendo alimentos, produtos de limpeza e higiene, brinquedos, livros e outros itens.

Você pode contribuir com qualquer valor pelo PIX, utilizando a chave [email protected]

A Periferia em Movimento também vai destinar 10% do valor arrecadado entre novembro e dezembro na campanha de financiamento recorrente, criada originalmente para fortalecer o trabalho com jornalismo de quebrada. Acesse aqui.

A Escola Feminista Abya Yala é uma rede de mulheres moradoras de periferias da zona Sul de São Paulo, que desde 2019 organizam ações práticas e encontros de estudos e cuidados coletivos. Para conhecer melhor, e acompanhar as ações da Escola Feminista Abya Yala, acesse o facebook ou o instagram.

Em formato híbrido, Festa Literária Noroeste quer evidenciar periferias como territórios pulsantes

Foto em destaque: @salvekebrada @trilhafavela

Poetas, slammers e demais artistas da palavra participam da 2ª Festa Literária Noroeste (FLINO), que acontece de 29 de novembro a 5 de dezembro. Durante os 7 dias da festa, a maior parte das atrações acontece de modo virtual, com transmissão online por meio do Youtube e Facebook da FLINO.

Haverá, ainda, algumas oficinas e atrações nas bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura da região e também nos CEUs (Centros Educacionais Unificados).

Com uma programação multicultural, a festa terá mais de 25 atrações, com transmissões ao vivo e também atividades presenciais. Haverá contação de histórias, intervenções poéticas individuais, espetáculos de teatro, exibição de documentário, música e performances, além de oficinas (faça aqui sua inscrição), rodas de conversa sobre literatura, território e temas ligados às questões étnico-raciais. Haverá também uma feira virtual de livros de escritores(as)  independentes da região. (Veja a programação completa mais abaixo).

Com o mote “CHÃO: sob o que penso, piso e sou”, o objetivo desta edição é evidenciar as potências encontradas nas periferias como lugar pulsante de literatura, arte e cultura. O homenageado da FLINO 2021 é o geógrafo Milton Santos, considerado um dos maiores intelectuais negros do século 20 e uma grande referência nas reflexões sobre território.

“O objetivo da festa é fortalecer a cena cultural e literária dos bairros da região, assim como ampliar a articulação e parceria entre as bibliotecas, equipamentos públicos, coletivos de cultura e comunidades do território”, aponta Sandro Coelho, bibliotecário da Biblioteca Brito Broca, que também integra a FLINO.

“Outro objetivo, ainda, é reforçar a importância dos movimentos negro, indígena, de mulheres, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, por meio de uma programação que reflita os diferentes aspectos do território noroeste”, continua.

O chão contra o cifrão

A abertura acontece nesta segunda (29/11), às 20h, com a roda de conversa “O Chão contra o Cifrão”, título de um artigo escrito por Milton Santos em 1999 sobre as territorialidades brasileiras, que continua atual após duas décadas.

Além de marcar o início da festa, a mesa homenageia o geógrafo, com uma conversa entre o professor Billy Malachias, do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro da USP; e Anthony Veríssimo, graduando em Direito, escritor e membro dos Guardiões da Floresta. A mediação é da professora de geografia da rede municipal de Perus, Rosângela André.

Democratização da Literatura

Na terça-feira (30/11), às 21h, acontece a roda de conversa “Democratização do Acesso à Literatura”, que contará com a participação da escritora e jornalista Bianca Santana, autora da biografia de Sueli Carneiro “Continuo Preta”; Carol Araújo, gestora da biblioteca comunitária Cine Teatro Pandora – Ocupação Artística Canhoba;  Franciele Busico Lima, coordenadora Geral do Centro de Educação de Jovens e Adultos – CIEJA Perus, com mediação de Sandro Coelho, gestor da Biblioteca Brito Broca, em Pirituba.

Já na quarta-feira (1/12), às 20h, o bate-papo é sobre Literatura Independente e contará com a presença de duas escritoras e poetas da região. Sônia Bischain, autora de “Nem tudo é silêncio” e colaboradora de vários outros livros das periferias; Gioh Fernanda, autora de “No Balanço da Paixão”. A mesa contará com mediação de Israel Neto, escritor e cofundador do coletivo Literatura Suburbana, autor de  “O Amor Banto em Terras Brasileiras”.

E na quinta-feira (2/12), às 20h, acontece também roda sobre a importância das Festas Literárias Periféricas, com a presença de Suzi Soares, idealizadora da Felizs (Festa Literária da Zona Sul), Ana Meira da Flipenha (Festa Literária da Penha), com mediação de Natália Santos.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA
1º DIA | 29/11, segunda-feira

20h | MESA DE ABERTURA – O CHÃO CONTRA O CIFRÃO (20h) | Online no FB e YT da FLINO

2º DIA | 30/11, terça-feira

14h | Ateliê da Memória e da Oralidade: no rastro do quilombo | Google Meet | Inscrições via formulário

21h | Roda de Conversa: Democratização do Acesso à Literatura  | Online  FB e YT da FLINO

3º DIA | 1/12, quarta-feira

14h | Oficina Os Caminhos de Carolina Maria de Jesus | Online no FB e YT da FLINO | Inscrições via formulário

18h | Espetáculo Juracy Boca Materna | Online no FB e YT da FLINO

20h | Roda de Conversa: Literatura Independente | Online no FB e YT da FLINO

4º DIA | 2/12, quinta-feira

10h | Oficina Produção de Fanzine | Online Google Meet | Inscrições via formulário

15h | Intervenção Poética Cabocly | Presencial CEU Pera Marmelo

18h30 | Rap e Poesia: Olha Ela | Online no  FB e YT da FLINO

20h | Roda de Conversa: Festas Literárias Periféricas |  Online no FB e no YT

5º DIA | 3/12, sexta-feira

10h | Contação de Histórias: As Contadeiras e seus Canteiros | Presencial Biblioteca Brito Broca 

14h | Oficina de Slam | Presencial CEU Vila Atlântica

20h | Batalha da 16 |  Online pelo FB e YT da FLINO

6º DIA | 4/12, sábado

11h | Oficina: Construção da Fubica (Movimento Negro Unificado) | Online e Presencial na Biblioteca Padre José de Anchieta

13h | Roda de Conversa Favelas e Aldeias: narrativa coletiva, sintonia na mensagem | Online no FB e YT da FLINO

15h | Feira de venda de livros da FLINO | Online no FB e YT da FLINO

17h | Curta-Metragem Como Recuperar o Fôlego Gritando | Online no FB e YT da FLINO

18h | Roda de Conversa Literatura, Futebol e Batucada nos terrões da noroeste | Online no FB e YT da FLINO

20h | Slam do Pico | Online no FB e YT da FLINO

7º DIA | 5/12, domingo

11h | Oficina Territórios, Memórias e Identidades | Google Meet | Inscrições via formulário

13 | Apresentação: A história da Capoeira, contada por nós pra nós (13h) | Online no FB e YT da FLINO

15h | Feira de vendas de livros da FLINO | Online no FB e YT da FLINO

17h | Intervenção poética: Do Haiti ao Brasil, sonho de um haitiano em trânsito | Online no FB e YT da FLINO

18h | Apresentação: ETHNOKHAOSS – a inversão do etnocídio | Online no FB e YT da FLINO

20h | Encerramento com Saraus da Noroeste | Online no FB e YT da FLINO

“Dia de Doar”: Jornalismo digital brasileiro se une em campanha de financiamento

Produzir e distribuir jornalismo de qualidade em redes digitais depende de financiamento. E para encurtar a distância entre quem pode contribuir financeiramente e quem precisa desses recursos para fazer jornalismo no Brasil, 26 organizações de todas as regiões do País estão unidas, pelo segundo ano, em campanha no Dia de Doar, comemorado em 30 de novembro. A data é mundial e tem como objetivo estimular a generosidade e inspirar pessoas a doar para aquilo o que elas acreditam.

Clique aqui, conheça as iniciativas e apoie! E para apoiar a Periferia em Movimento, acesse nossa campanha abaixo!

A parceria das organizações, articulada pela Associação de Jornalismo Digital (Ajor),  conta com a participação da Agência Envolverde, Agência Mural, Agência Pública, Alma Preta, Amazônia Real, Aos Fatos, AzMina, data_labe, Eco Nordeste, Énois Laboratório de Jornalismo, Fauna News, Gênero e Número, O Joio e O Trigo, Jornal Metamorfose, Manual do Usuário, Marco Zero Conteúdo, Matinal Jornalismo, Nonada Jornalismo, Nós, mulheres da periferia, ((o))eco, Periferia em Movimento, Portal Catarinas, Ponte Jornalismo, Quatro Cinco Um, Saiba Mais e Sul21.

As ações para estimular doações serão feitas nos perfis de redes sociais das organizações de Jornalismo, sempre usando a hashtag #diadedoar. A ideia é motivar quem consome o conteúdo a, também, contribuir financeiramente para que o trabalho dessas organizações continue e seja ampliado.

Em comum, essas instituições têm o foco na fiscalização do poder público, pluralidade editorial e trabalham para defender a democracia – que está sendo tão ameaçada por uma enxurrada de desinformação. O apoio financeiro a esse trabalho é um posicionamento em defesa do Jornalismo, um dos pilares da democracia.

Em desfile-protesto na SPFW, marca negra e periférica questiona limites de “inclusão” pela branquitude

Reportagem de Camila Lima. Fotos por Amanda Rodrigues

Edição de texto: Thiago Borges

“De que adianta abrir as portas deste espaço, quando mesmo com todo dinheiro e recurso você prefere não garantir a permanência desses corpos pretos periféricos e marginalizados? Hoje, [usar] camisetas amarradas no rosto é como um escudo pra se proteger do que eles mais querem”.

Mile prepara modelo nos bastidores do desfile (Foto: Amanda Rodrigues)

Com essa fala, a diretora criativa Milena do Nascimento Lima fechou o desfile de sua marca Mile Lab na 52ª São Paulo Fashion Week (SPFW), a semana de moda da capital paulista, no último sábado (20/11). A data é marcada pelo Dia Nacional da Consciência Negra, importante para a luta do povo preto no Brasil, e foi escolhida por grifes criadas por pessoas negras para se apresentarem na passarela.

Ativamente conectada com seu território, o Grajaú (no Extremo Sul de São Paulo), a Mile Lab é uma das 8 marcas contempladas pelo projeto Sankofa. A iniciativa da SPFW prevê mentoria e suporte por 3 anos a negócios de pessoas negras no mercado da moda.  

Mile trouxe para a passarela o inesperado e irreverente aos olhos de quem está acostumado com modelos de passos milimetricamente ensaiados e no padrão branco, magro e alto – o que remete a manequins das vitrines de lojas. 

“Deixe que nós contemos nossa história (…) Minha moda não é só mais uma, meu conceito é de rua e isso vocês não vão entender. São os favelados, se acostuma”, bradou o multiartista Bruno Luan, integrante da equipe, durante a abertura. “Não mudo minha postura. Estou aqui para mostrar o que vocês queriam esconder”.

A marca Mile Lab transformou a passarela num baile de favela. No telão, uma mulher com rosto coberto inicia um “passinho” enquanto modelos tomam o espaço ao ritmo do funk.

Roupas em cores neutras de preto e branco, peças curtas e coladas aos corpos de tamanhos e formas diversas dos modelos que ali dançavam e arcavam o estilo do bailão. Panos brancos que ancestrais usavam para a proteção de suas peles entram como adereço repaginado. 

Cabelos crespos valorizados, soltos, trançados, além de apliques. Ao invés de joias, anéis e colares como adorno e complemento dos looks, Mile trouxe pipas gigantes da loja Miltão Pipas (que fica no Grajaú) grafitados por Cauã Bertoldo (também da região), remetendo aos espaços periféricos que dão origem à marca. Os óculos de lentes espelhadas também estavam presentes. E para as câmeras e plateia, punhos cerrados e muito afronte.

O desfile-protesto foi aplaudido de pé pelo público, composto por pessoas brancas e negras. Mas alguns empresários e potenciais investidores brancos sentados na primeira fileira passaram os quase 20 minutos entretidos no celular, com a recomendação dada a assistentes de avisarem se vissem “algo interessante”.

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Por trás das cortinas

Com tudo perfeitamente apresentado, mal se imagina o clima de bastidores. Sem glamour. Na preparação de modelos, há sempre uma correria para a prova das roupas e seus ajustes finais, maquiagem e cabelo de todo o elenco. 

Assim foi também com a equipe da Mile Lab, mas com um diferencial: o clima de exaltação da beleza periférica. Uma mini caixa de som tocava funk e, a cada modelo pronto, surgia uma roda onde a pessoa ia para o centro. Além de profissionais das passarelas, a equipe da marca periférica é composta por poetas, dançarinos e artistas de diferentes linguagens.

“Nosso corpo é político, e quando estamos falando da indústria da moda que não nos representa, estar aqui hoje é revolucionário”, ressalta Gabriela Gomes Bazilio, que também é moradora do Grajaú e idealizadora da marca Mocamba Ateliê. “Mostramos para eles o nosso lugar de importância, nossos corpos importam , nossas vidas importam, e o quão rico a gente é”, continua ela, que foi prestigiar o desfile da Mile Lab.

Para o rapper Caique Badrani, esse foi o ponta pé de muito que ainda está por acontecer. “Estamos hoje ocupando um espaço que na verdade sempre deveria ser nosso. Eles não estão cedendo nada. Estamos na verdade pegando uma fatia do bolo”, diz.

Presença

Para Ícaro Silva, ator e modelo, essa ocupação da SPFW por marcas não brancas é muito rica por não “mimetizar” o padrão europeu. “A grande importância de termos corpos pretos e não brancos na SPFW, que é tradicionalmente um espaço elitista, é trazer a pluralidade do Brasil para a cena. É trazer de fato a nossa história brasileira”, diz ele, que participou de um dos desfiles do projeto Sankofa.

Ícaro Silva em entrevista à Periferia em Movimento (Foto: Amanda Rodrigues)

Familiar da intelectual e feminista negra Lélia González, homenageada por uma das marcas contempladas pelo projeto, Melina de Lima destaca que o desfile foi muito potente. “Hoje é um dia de celebração do orgulho negro. Estamos ocupando um espaço. Ainda tá longe do ideal, mas ainda assim é uma vitória. O desfile de hoje foi muito emocionante, corpos pretos ocupando espaços, desfilando e também assistindo”, destaca.

É inegável essa presença negra em diferentes espaços do evento. Após os desfiles, o público podia interagir com obras na parte térrea do espaço que falavam da importância do mês da Consciência Negra. Uma intervenção reproduzia imagens em terceira dimensão  de uma plantação e de sementes, trazendo a sensação de estar flutuando e participando de uma colheita. 

Outra obra mostrava um filme com uma mulher preta apresentando sua invisibilidade por meio de movimentos do corpo. Ao atravessar a cortina de elástico, o público precisava fazer força para conseguir passar. Do outro lado, se deparava com o mesmo vídeo sendo reproduzido, porém com cores, provocando à pergunta: o que você quer enxergar?

E nós, o que decidimos  enxergar nessa semana de moda com marcas pretas fazendo os seus protestos e ocupando espaços brancos e elitizados?

Isso se evidencia no caso de uma profissional negra ouvida pela reportagem. Após muitas dificuldades para conseguir trabalhos na área, ela foi contratada como modelo por uma agência. Porém, não entrou na passarela da SPFW e foi realocada para outra função, sem a mesma visibilidade. 

E aqui, o manifesto de Mile Lab ecoa novamente: afinal, neste espaço de glamour, poder e dinheiro, o quanto o corpo preto é de fato valorizado? Pessoas negras exigem respeito e representatividade. 

Com quilômetros de muros coloridos, Grajaú tem destaque no “mapa” do graffiti paulistano

Por Thiago Borges. Foto em destaque: Cristhiane Evangelista

A pé, de trem ou de barco. Pela avenida Belmira Marin, via trilhos da CPTM ou nas águas da represa Billings. Não importa a forma como a pessoa chega ao Grajaú. Ela é recepcionada com cartões de visitas que já são uma marca desse distrito localizado na periferia do Extremo Sul de São Paulo: os graffitis.

“O Grajaú é uma potência enorme do graffiti, mas não muito diferente de outras periferias. É uma cultura urbana e, conforme a cidade vai crescendo, essa cultura vai se expandindo também”, explica Wellington Neri, o Tim, artista e educador do Imargem. O coletivo atua há mais de uma década na região discutindo arte, meio ambiente e convivência, e cita iniciativas em outras partes da cidade, como o Arte e Cultura na Quebrada e o Grupo OPNI, da zona Leste paulistana.

Há cerca de 10 dias, o Imargem reuniu centenas de artistas de diferentes localidades para pintar um mural de mais 3 quilômetros de extensão nos muros da estação de trem do distrito e em escolas e condomínios do entorno. Foi o 12º Encontro Niggaz, um rolê que acontece desde 2004 na região em homenagem a um dos principais nomes da cena do graffiti.

Morador do Grajaú, Niggaz é considerado um precursor do graffiti, sendo o primeiro grafiteiro a cruzar a fronteira entre periferia e centro de São Paulo e tornando-se um dos ícones do muralismo na cidade. O artista morreu em maio de 2003. Em todos esses anos, mais de 2 mil artistas já se reuniram pra colorir muros do Grajaú em sua homenagem. “O papel do Niggaz é super relevante no que se reflete hoje”, observa Tim, que também cita outras referências, como Enivo e Jerry Batista.

Os 2 estiveram nesse último encontro, com nomes mais consolidados e também mais novos na cena. Por ali, passaram artistas do território, como Mariana Rosa, Thainá Índia e William Mangraff, entre outres. Esse último, aliás, recentemente participou da revitalização de um escadão próximo ao Pagode da 27 com a participação de crianças; e é um dos autores de um mural na Escola Municipal Teodomiro Toledo Piza.

https://www.instagram.com/p/CWixQu8r8SV/

Gelson Salvador, Adriano Bizonho e Helder Holiveira, que formam Os Três, recentemente criaram graffitis nas paredes das escolas estaduais Eurípedes Simões, no Jardim Lucélia, e Tancredo Neves, no Jardim Novo Horizonte. E na entrada do CEU Navegantes, uma pintura destaca obras literárias.

Do outro lado do CEU Navegantes, outra fachada é ocupada por uma obra de Mauro Neri, que ilustrou Laís, integrante do coletivo Navegando nas Artes. A pintura se confunde com a paisagem, que tem a represa onde o grupo coloca seus barcos à vela para navegar. A intervenção compõe o projeto Cultura e Educação nas Margens do Grajaú, feito pelo Imargem com apoio do Fomento à Cultura da Periferia. Em outro CEU, o 3 Lagos, Mauro homenageou profissionais da educação com a pintura da escritora e professora Maria Vilani. Novamente, a arte se confunde com a paisagem.

Os graffitis estão marcados em toda parte, dos postes a pequenos portões. Mas segundo Tim, que é irmão de Mauro, a ideia é aproveitar também esses grandes espaços disponíveis no território para estabelecer esse diálogo e provocar alguma reflexão. Um dos mais recentes foi inaugurado na última sexta-feira (19/11), véspera do Dia da Consciência Negra, em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum.

A intervenção fica na empena da Escola Estadual Mariazinha Congílio, no Jardim Monte Verde. Localizada às margens da represa, a escola recebeu na fachada a obra “Matas Vivas Vidas Negras, salvem”, que simboliza a população preta em meio a realidade das florestas brasileiras. Dados do Censo, por exemplo, estimam que mais de 80% da população da Amazônia é negra.

“Trazer a Amazônia negra para um lugar como o Grajaú, dentro de uma área de proteção ambiental na Mata Atlântica, confirma que os biomas se conectam pela cultura, pela beleza e pelas mazelas das desigualdades sociais”, afirma Vanessa Nascimento, diretora executiva do Instituto.

E não é por acaso que a sede da Periferia em Movimento, que também fica no distrito, é grafitada. Por aqui, buscamos expressar o que direciona nossa linha editorial com a contribuição dos traços de Mangraff, Mariana Rosa e Felipe Carvalho:

Grafitaço na casa da PEM com Will Mangraff

Despejada de cemitério em Parelheiros, biblioteca comunitária faz campanha para manter acervo

Imagem em destaque: montagem de Rafael Cristiano

Há 12 anos, um espaço de leitura inusitado ingressava no circuito literário das periferias: a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura (BCCL), que passou a funcionar na antiga casa do coveiro do cemitério de Colônia Paulista (distrito de Parelheiros). Fundado em 1842 por imigrantes da Alemanha que se estabeleceram no Extremo Sul de São Paulo, este é o cemitério protestante mais antigo do Brasil. E nos fundos do terreno, atrás dos túmulos, jovens passaram a se reunir para ler e mediar a leitura de outras pessoas da comunidade.

Junto a lideranças comunitárias, essa juventude gerenciava o espaço coordenado pela organização Ibeac. São mais de 5 mil títulos literários disponíveis à população local. Ao longo dos anos, a BCCL sediou eventos diversos, como saraus, slams, apresentações de música e teatro, debates, oficinas, entre outros. A iniciativa ganhou diversos prêmios e participou de festas literárias País afora.

Em 2015, a Periferia em Movimento contou a história da biblioteca aqui. Em 2017 e 2021, promovemos oficinas de jornalismo em parceria com o grupo.

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Com a pandemia, a biblioteca recebeu uma intimação da diretoria da Associação Cemitério dos Protestantes (ACEMPRO) para que desocupasse a casa e, assim, abrisse espaço para novos túmulos. De forma criativa, o grupo criou a campanha “Eu (a)guardo a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura”, em que a comunidade e parceires ficam responsáveis por cuidar de uma sacola com 10 obras literárias até que o acervo ganhe a um novo espaço fixo.

Para retirar uma sacola, basta ir às quartas, quintas e sextas, das 10h às 16h30, na biblioteca que fica na rua Sachio Nakao, bairro do Colônia Paulista.

E para colaborar com a campanha, é possível fazer um pix para a chave [email protected] em nome do Ibeac – Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário Queiroz Filho (CNPJ 47460183/0001-91, Banco do Brasil, agência 4328-1, conta corrente 4856-9).

Consciência Negra: Protestos e eventos culturais marcam fim de semana de luta em SP e no Brasil

Foto em destaque: Ato em 13 de maio de 2021 / Mídia Ninja

Neste sábado, completam-se 50 anos da primeira celebração do dia 20 de novembro – e também início de reivindicações da data como dia da Consciência Negra. A data, que marca o assassinato do líder quilombola Zumbi dos Palmares, foi reconhecida por lei federal em 2011 e é marcada como feriado em diferentes cidades do País – inclusive, São Paulo. E a luta contra o racismo e por direitos marca este fim de semana.

A partir do meio-dia, a avenida Paulista recebe a 18ª Marcha da Consciência Negra, que ocupa as ruas da cidade para lutar pela vida do povo negro brasileiro e é marcada em especial pela reivindicação da saída de Bolsonaro do poder. A manifestação tem início com apresentações de artistas e grupos culturais, um ato de abertura com povos de terreiro e caminhada.

A marcha é organizada pela Coalizão Negra por Direitos, Convergência Negra, Campanha Fora Bolsonaro, entre outras entidades. Os grupos recomendam uso de máscara ao longo de todo evento. Mais de 60 atos estão previstos em todo Brasil e em 4 países do exterior. Confira a relação completa aqui.

Já no domingo (21/11), o CT em Luta – Comitê Mestre Moa realiza a Marcha da Periferia em Cidade Tiradentes (Extremo Leste da capital paulista). O ato acontece às 13h, em frente ao terminal de ônibus Cidade Tiradentes.

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Cultura e convivência

Nesta data, as manifestações culturais também reforçam a importância do povo negro na sociedade brasileira e denunciam violações que seguem acontecendo.

O projeto CineB Solar, que faz exibições de filmes utilizando uma van, vai promover 2 sessões do filme Doutor Gama. O filme biográfico conta a história do escritor, advogado, jornalista e abolicionista Luiz Gama, que usou seu conhecimento sobre as leis e os tribunais para libertar mais de 500 pessoas escravizadas durante sua vida. As exibições acontecem nesta sexta (19/11) no salão da Paróquia São Patrício (avenida Otacílio Tomanick, 1555 – Rio Pequeno, zona Oeste); e na segunda-feira (22/11), às 19h, na escola Irmã Dulce (rua Vitoriano Palhares, 10 – Jardim Amália, zona Sul). É preciso pegar ingressos antecipadamente e seguir protocolos de segurança sanitária.

Já no sábado (20/11), a partir das 14h, a Casa Poética realiza o evento Biqueira Literária: Prosa e poesia. O encontro começa às 14h, com um diálogo sobre antirracismo com a participação das poetas Luz Ribeiro, Jéssica Campos, Matriarcak e Brenalta. Em seguida, Elizandra Souza, Juliana Prado, Aline Fátima, Mila Rodrigues e Débora Santos fazem um bate papo sobre o lançamento do livro “Literatura Negra Feminina”. O espaço tá localizado na rua Miguel Rachid, 611 – Vila Paranaguá (zona Leste).

Também no sábado (20/11), às 20h, o Coletivo Negrume faz um ensaio aberto de O Auto do Coração Engatilhado. Na performance, Riquelve entra em um ônibus pronto pra disparar. Parado em uma avenida de uma grande cidade, ele encontra em seu caminho uma estudante de direito, uma mãe de santo e 80 snipers em posição de ataque. A transmissão virtual acontece pela plataforma zoom. Para acompanhar, é necessário enviar uma mensagem para o coletivo aqui.

No domingo (21/11), a Associação Cultural Cafundós promove uma edição especial do Grajaú contra o Racismo. A partir das 14, ocorre um cortejo de abertura, seguido por roda de conversa sobre o que é Consciência Negra e um encerramento com vivência em danças populares. Com a situação da pandemia, o evento ocorre em formato reduzido e totalmente ao ar livre: será às margens da represa Billings, no deck do parque linear do Lago Azul, localizado na rua Flor de Cactos (Extremo Sul de São Paulo).

Próximo dali, no mesmo dia, a Rede Nois por Nois inaugura sua nova sede. Hub de criatividade, articulação e desenvolvimento de pessoas e negócios periféricos, a rede apresenta o espaço com apresentações de Somos Umsoh, DJ Vijay e DJ Liccis; petiscos com Sabores Divinos; loja colaborativa Sankofa Hub; e a exposição e venda de produtos de marcas pretas e periféricas. A partir das 17h, na rua São José do Rio Preto, 749, no BNH.

MCs veem no funk uma possibilidade de se manifestar e viver da arte

Reportagem de Fernanda Souza*. Captação e edição de vídeo: Vitori Jumapili

Edição de áudio por Paulo Cruz. Design por Rafael Cristiano. Orientação de reportagem: Gisele Brito. Revisão: Thiago Borges

Já parou para se perguntar se MC também quer viver de sua arte? Já parou para pensar que o funk é manifestação artística, que existem indivíduos produzindo, criando e tocando outras mentes? Será que é só por dinheiro? Como é o processo de escrita, o jogo com as palavras, suas referências e como começou? E se a gente te perguntar: Pode MC de funk ser artista? 

Ao contrário das pautas que exploram as histórias de MCs e suas trajetórias de ascensão social, nesta reportagem procuramos ir além do senso comum. Tá pronte para isso? Marcha!

*Fernanda Souza faz parte do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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