Estação Varginha: Fotógrafo registra abandono de obras em linha de trem, retomadas recentemente

Por Thiago Borges

Vitor Almeida era criança quando ouviu falar que o trem chegaria ao Jardim Varginha. Nascido e criado neste bairro do Extremo Sul de São Paulo, hoje ele tem 21 anos e é um dos moradores locais que esperam há uma década pela entrega da prometida estação.

Para registrar o abadono, em 2017 ele produziu a série de fotos “Em torno Estação Varginha”, que se tornaram públicas somente agora em seu instagram.

A linha 9-Esmeralda da CPTM liga Osasco (na região metropolitana) ao Grajaú (Extremo Sul da cidade). Em 2010, o então candidato a governador Geraldo Alckmin prometeu estender a linha em 4,5 quilômetros, com 2 novas estações: Mendes-Vila Natal e Varginha. A Periferia em Movimento já abordou isso aqui.

As obras só foram iniciadas em 2013 e, nesse meio tempo, ficaram quase 2 anos paradas, sendo retomadas apenas em 2018 em ritmo lento – elas voltaram a parar em maio do ano passado. A nova previsão é de entregar as estações entre 2021 e 2022. Vitor não alimenta esperanças.

“O retorno da obra não é algo que gere expectativas para nós, os moradores daqui, pois já temos um pensamento sobre isso: quando passar as eleições , eles somem de novo”, lamenta. “Em época de eleição, eles sempre aparecem pra dar uma mexida, trocar as placas e tudo mais”.

O que eu vejo?

O registro fez parte de um trabalho no curso técnico de fotografia na Etec, em que Vitor se formou. A atividade tinha como tema retratar o cotidiano.

“Fotografei os arredores da estação com intuito de retratar como que estavam as coisas por ali, pois passava de ônibus todos os dias e via uma galera se movimentando por lá”, conta.

Nas construções inacabadas, conversou com crianças que soltavam pipa ou jogavam bola. O lugar era ideal para brincadeiras, já que não tinha fios de alta tensão nem trânsito de veículos.

Senhoras que utilizavam o local como passagem esperavam que a obra “valorizasse” o bairro.

E em baixo da futura plataforma da estação, Vitor se deparou com pessoas que viviam ali. Uma delas foi Corsi, que ele retratou na série. O homem refletiu sobre a sociedade, o vício e esperava sair dali pois tinha uma filha para criar.

Enquanto o trem não chega, Vitor continua fotografando outras temáticas.

O acontecimento das candidaturas periféricas: renovação política e esperança

Por Gisele Brito*. Foto em destaque: Julia Vitoria

Em novembro teremos eleições para eleger prefeitos e vereadores em todas as cidades do País. Aqui em São Paulo, se por um lado as opções para prefeito não são lá muito animadoras, com vários homens brancos, burocratas, defensores da violência e hipócritas, para a Câmara Municipal há algumas opções muito interessantes de pessoas e coletivos fortemente identificados com as periferias, como a PEM já apresentou aqui

Antes de seguir, é importante dizer o que estou chamando de “identificados com as periferias”. 

Afinal, em toda eleição, vários candidatos que marcam presença em plaquinhas e faixas em portões pela quebrada são eleitos e alguns deles exercem papel importante na Câmara. Certamente, é com o voto dos moradores das periferias que esses vereadores são eleitos. E também é para as periferias que esses vereadores, alguns deles com mandato há muito tempo, direcionam alguns de seus projetos e recursos de emendas. 

Bom, então qual a diferença?

Pra mim, a primeira delas é que há um grande número de candidaturas de pessoas por volta dos 30 anos (com todo respeito aos mais velhos). Gente que viveu os perrengues do final dos 1980 e anos 1990, frequentou ONGs na infância e adolescência e saraus na juventude.

Gente que frequenta igreja e shoppings; Gente que pisou no barro e viu McDonald’s chegar no bairro. Gente que bateu laje e foi fazer cursos ou faculdade no centro da cidade e, nessa travessia, teve tempo de elaborar outro tipo de visão de cidade e política. Gente que já fazia política antes de se candidatar. Uma política sem cargo em gabinetes, sem fazer leva e traz para vereadores. 

Aí talvez a principal diferença: são candidaturas que de formas diferentes representam novas formas de organização política das quebradas, com novas linguagens, novas pautas e novas formas de tratar de velhas pautas. São candidaturas que se afirmam periféricas, pretas, antirracistas e antimachistas.

Que sabem que falta esgoto, mas não menosprezam o paredão grafitado. Que respeitam as tiazinhas da igreja, e as bichas e sapas da pracinha. Sabem que falta busão pro centro, mas querem peruas entre quebradas. Sabem que falta creche, mas valorizam a vivência comunitária. Sabem da violência e não pedem mais violência.

O acontecimento dessas candidaturas revela uma renovação política que vários setores da política não enxergam. Na verdade, não consideram e até combatem. Porque além de questionar o conservadorismo, o racismo, o machismo, essas candidaturas também questionam a forma como os fazeres políticos das periferias são vistos, sempre como fruto da inconsciência, como se fosse sempre pensada com a barriga, pra obter vantagem, o que mantém na periferia política quem deveria protagonizar as transformações que os discursos tanto anunciam. 

O acontecimento dessas candidaturas, e o possível sucesso de algumas delas, também coloca o desafio para que a renovação política continue ocorrendo nas vielas, com independência, para que nenhum eleito se ache maior que os outros ou sozinho para fazer o certo. Sem pressão e apoio das bases, qualquer mandato é apenas um emprego muito bem remunerado. Assim como são a maioria dos mandatos dos homens das plaquinhas nos portões das quebradas. 

*Gisele Brito é mais uma da sul. Jornalista, co-editora do zapcast Pandemia Sem Neurose. Também é mestranda em planejamento urbano na FAUUSP e pesquisadora do LabCidade

Alimento: ritual e saber ligado à ancestralidade

Por Julia Vitoria. Fotos: Plano de Visitação Tenondé Porã

Da terra, nasce uma cultura. Do alimento, cria-se um ritual. Da ancestralidade, se tem a preservação da história. E do coletivo, a potência para ocupar e restaurar. 

Esses foram alguns dos temas apresentados por Jerá Guarani, agricultora e 1ª liderança feminina da aldeia indígena guarani Kalipety, localizada em Parelheiros (Extremo Sul de São Paulo); e Michel Yakini, escritor, produtor cultural e artista-educador. Ambos participaram do debate “O que te alimenta? Das raízes à criação literária”, mediado pelo poeta Binho Padial na programação da 6ª edição da Feira Literária da Zona Sul (Felizs)

Veja como foi:

Resgate cultural

Como vários outros povos originários do Brasil, Jerá viveu de perto os danos causados pelas limitações das demarcações de terra. Isso afetou diretamente a construção cultural de Jerá.

Ela diz que, para viver as tradições guarani com qualidade, seria importante ter uma distância de 1h a 1h30 entre núcleos familiares. O núcleo familiar tem uma importância vital na manutenção dos saberes e na transmissão dos conhecimentos de uma geração para outra. Nele, os integrantes são os próprios encarregados de ensinar as práticas culturais que fazem parte do cotidiano da comunidade. 

(Foto: Aparecido Alves)
Vista geral da aldeia Tenondé Porã. (Foto: Aparecido Alves)

Porém, ela cresceu na terra indígena Tenondé Porã, que até 2013 tinha apenas 26 hectares. Após 30 anos de luta, os indígenas finalmente conseguiram a ampliação da terra demarcada para 15.969 hectares entre os municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo e Mongaguá, no litoral paulista. Isso permitiu que o povo guarani mbya, conhecido pelas práticas de agricultura, recuperasse áreas degradadas pelos “juruá” – termo que utilizam para se referir aos não-indígenas.

Em 6 anos, foram recuperados 9 tipos de milho guarani e mais de 50 tipos de batata doce, chamada de jety, foram resgatados em uma série de viagens em aldeias guarani de diversas regiões do Brasil.

Mais do que plantar, o alimento está diretamente ligado à espiritualidade do povo. As etapas que envolvem desde a recuperação do solo até a colheita são permeadas por rituais e conhecimentos sagrados, passados de geração em geração pela oralidade.

“Por muitos anos na aldeia pequena, nós fomos prejudicados nessa prática de agricultura, por não poder vivenciar todas as etapas dos rituais, das fases da lua, dos tipos de pratos derivados de cada tipo de semente… E o que nós mais queríamos era ter de novo a terra para poder plantar, colher e viver tudo isso”, explica Jerá. 

Esse saber também vira escrita. Formada em Pedagogia, a líder indígena lecionou, fez parte da direção de uma escola na terra indígena e publicou um livro infantil totalmente em guarani, além de outros em língua portuguesa.

Natureza, fonte da criação

A ancestralidade que brota da terra também vira alimento para a criatividade de Michel Yakini, que é guiado pela espiritualidade na hora de pegar na caneta.  “Os espíritos começaram a conversar comigo para que eu escrevesse”, diz Michel, que através da fé encontrou seu caminho na produção do saber literário. 

As idas aos saraus da região de Pirituba, onde ele mora, permitiu um entendimento de reconhecer sua escrita como algo sagrado e fonte de expansão de sua masculinidade e ser. “Me alimento de poesia, de espiritualidade. Esse alimento de se tornar criativo, em um mundo que nos força a não ser”, observa Michel. 

Uma das práticas que adquiriu em 13 anos de idas aos saraus foi a de ficar em silêncio – que nos conecta com o coração e essa emoção nos faz ser mais que mentais.

Além disso, Michel acredita que todo ser humano tem criatividade. Mas como ela é natural, para que seja aflorada é preciso estar perto e conectado a natureza. As palavras que ele deixa no final de sua fala é, força, leveza e harmonia. 

Quebra das Ideias: Morte e luto são temas de 1ª edição do podcast da Periferia em Movimento

Foto em destaque: Alexya Salvador (divulgação)

Em um cenário de distanciamento social, como temos lidado com as dores da morte e do luto? E como a fé pode ser elementar para passar por isso.?

Morte e luto são justamente os temas da estreia de “Quebra das Ideias”, o podcast que a Periferia em Movimento lança nesta segunda-feira (21/09) no anchor, spotify e nas principais plataformas virtuais de áudio. Ouça abaixo na íntegra:

Para falar sobre isso, a jornalista Aline Rodrigues conversa com Alexya Salvador. Mãe, professora e primeira reverenda transgênero da Igreja da Comunidade Metropolitana, Alexya é ativista dos direitos humanos e está pré-candidata a uma vaga na Câmara de Vereadores de São Paulo nas eleições municipais de 2020.

“Quando nos vemos no luto, a fé é que nos vai fazer vivenciar e superar esse momento”, ressalta Alexya, que faz um alerta: “Claro que também percebemos uma narrativa contrária de algumas igrejas levando seus fiéis para outro caminho. Vale dizer que a fé não imuniza a gente da covid-19”.

O programa é um resgate da entrevista realizada em maio, no programa “Quebra das Ideias”, transmitido ao vivo no facebook da Periferia em Movimento. Confira abaixo na íntegra.

Agora, a produtora independente de jornalismo de quebrada resgata algumas dessas conversas para distribuir em um formato que pode alcançar novos públicos. O envio é feito, inclusive, pelo whatsapp (clique aqui para receber também via celular).

Além de Aline Rodrigues, o podcast conta com redação de Thiago Borges, roteiro e a edição de áudio de Paulo Cruz e adaptação para vídeo de Pedro Ariel Salvador. A equipe também é composta por Camila Lima, Karina Rodrigues e Laís Diogo.

Setembro Amarelo em tempos de pandemia

Por Danielle Braga*. Foto em destaque: Atividade conduzida no CDCM – Mulheres Vivas, em 2018 / Arquivo pessoal

O Setembro Amarelo é um mês de profunda reflexão sobre o suicídio. Esta cor representa um caso que repercutiu uma campanha realizada nos Estados Unidos, e a OMS usa como exemplo para disseminar mundialmente esta campanha.

Considero bonito este gesto, mas acaba por difundir uma ideia de pensar o suicídio como se os seus fatores estivessem relacionados a um único território, ou a forma de solucionar esta questão se aplicasse por igual, como se as causas fossem as mesmas para diferentes regiões do mundo.

Faço essa crítica, pois de modo geral os casos de suicídio poderiam ser evitados se territorialmente cada população tivesse uma orientação a respeito das causas e fatores que levam ao suicídio naquele território.

O acesso a saúde pública aqui no Brasil é diferente que nos Estados Unidos, onde não há um Sistema Único de Saúde (SUS). Então, se temos acesso ao serviço público, por que a taxa de suicídio no Brasil não é inferior em comparação a países que não têm um SUS?

São pouquíssimos os profissionais de saúde pública nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e hospitais públicos. Quando os têm, o atendimento de modo geral é em grupo, muitas vezes pensado e feito entendendo a dinâmica dos profissionais que tentam dar o seu melhor para a população, mas que não consegue dar conta total ou parcial da população.

As causas de suicídio podem ser múltiplas e as taxas de suicídio tendem a aumentar em períodos de crises sociais.

Mas durante a pandemia os fatores estão relacionados ao isolamento social, ao desemprego, ao aumento das taxas e denúncias de violência doméstica, ao aumento de abusos infantis, ao baixo suporte social e político, à dificuldade de acesso a saúde, ao risco de ficar desabrigado, ao aumento de preços para suprimentos básicos e às múltiplas violações de direitos.

Confira também: Dicas de autocuidado para fazer em casa

Epidemia de casos

Não entendo como podem falar apenas de suicídio em setembro, já que no início da pandemia tive um aumento de casos.

Me disponibilizei a atender mulheres da periferia de modo voluntário e, em parceria, com Periferia Segue Sangrando, A bordar, Escola Feminista Abya Yala e Escuta Liberta – este último, um grupo de psicólogas (os) que atendem em parceira com o Amparar, organização de familiares de pessoas presas que durante a pandemia sofriam por falta de informações de seus parentes presos.

Ao todo devo ter atendido cerca de 20 a 25 mulheres. Os atendimentos poderiam ser um único acolhimento ou mais de 4 atendimentos, e algumas ainda estão em atendimento.

Os atendimentos eram voltados apenas para mulheres, no meu caso, que de modo geral eram mulheres negras, periféricas, lésbicas, bi, trans e cis. São mulheres de religiões de matriz africanas, evangélicas, católicas e de múltiplas religiões. São mulheres mães, não-mães, estudantes e trabalhadoras que se desdobram para assumir a responsabilidade de suas casas, de suas vidas. E, das que podem pagar pelo atendimento em dinheiro, reservam uma quantia para a necessidade de cuidar de si mesmas, o que é um avanço para as mulheres periféricas.

Acolhi mulheres de diferentes periferias de São Paulo, interior e litoral de São Paulo, de Curitiba, da Bahia. As queixas eram em torno do aumento das crises de ansiedade, violência doméstica e orientação sobre serviços de proteção a mulher e seus filhos.

Bom seria se todas as mulheres tivessem acesso por um período de suas vidas ao atendimento psicológico que vise suas necessidades como uma mulher periférica, que tem em seu território necessidades específicas que alteram seu desenvolvimento quanto sujeita e participante sociopoliticamente.

Danielle Braga (foto: arquivo pessoal)

Sintomas da desigualdade

Em suma maioria, as mulheres que atendi já pensaram em suicídio diante das mazelas sociais presentes. O que é muito preocupante. Saber que diariamente as mulheres não estão tendo perspectiva de vida social sustentável para ela e os seus a ponto de entender que um mundo melhor é um mundo sem elas.

Um dos casos que me chamou a atenção pra pensar a lógica estrutural da clínica terapêutica foi uma mulher que não tinha como ficar sozinha em sua casa, morava em uma casa de ocupação com seus filhos, que fora da escola estava sempre em casa durante os atendimentos.

Não havia possibilidade de pensar com ela uma lógica de setting terapêutico, com silêncio, sem interferências ou em um local reservado. O que ela conseguia muitas vezes é pedir para todos saírem do cômodo, ou ia para a casa de sua mãe. Foi necessário se adequar às necessidades dela, que neste momento é quem necessitava mais de adequação, e não o contrário. Não posso exigir que uma pessoa em sofrimento se enquadre às minhas necessidades, se suas possibilidades não lhe favorecem.

Socialmente discutimos sobre desigualdades sociais em relação a acesso à educação, moradia e outros tantos direitos. Mas ao chegar em uma sala de atendimento essas desigualdades também se apresentam. Como quebrar os muros que distanciam a saúde mental da população periférica? Creio que é estar disponível pra essa desigualdade entendendo que não existe outra forma possível.

Pensar temas como suicídio é relacionar a falta de proteção periférica com os seus, com a falta de apoio e visibilidade do sofrimento causado devido também ao racismo, ao sexismo e à desigualdade de classes, que ficou tão escancarada neste período de pandemia.

Espero, com forte esperança, que a falta e o luto coletivo que ainda iremos lidar diante de tantos nomes que se foram gerem a necessidade de pensar mais espaços, físicos e onlines, voltados para que a periferia possa falar sobre si, sobre seus sentimentos e sofrimentos.

Em tempos tão sombrios como esse, o que nos mantém de pé é o sentimento de solidariedade e o acolhimento empático. Vejo exemplos de tantas outras mulheres que não são psicólogas e que combatem o suicídio, com gestos carinhosos e atenciosos, mulheres como as integrantes do Periferia Segue Sangrando que tanto me ensinam sobre luta, troca e caminharem juntas, e tantas outras iniciativas que vimos ao longo desses penosos meses de pandemia.

Combate ao suicídio não é só uma fita amarela, mesmo sendo importante a lembrança, mas o combate é sempre a ação solidária, é o se fazer presente, “boleta dos zoinho com boleta do zoinho”, que é pra que a Outra saiba que está sendo vista. E, ao ser vista, saiba que não está sozinha.

Axé para todas e que pensem sempre em buscar apoio. No mundo sempre existe uma mão pra nos levantar, por mais que pensemos o contrário.

Danielle Braga (foto: arquivo pessoal)

*Danielle Braga é mãe e psicóloga periférica. Formada pela UNIAN – Campo Limpo, com curso de extensão e aperfeiçoamento em Movimentos Sociais e Crises Contemporâneas à luz dos clássicos do materialismo crítico, ofertado pelo IBEC/ UNESP; Curso de extensão em Marxismo e Psicologia – UNB e em formação em psicanálise pelo Instituto Planação. Atuou como psicóloga na rede sócioassistencial, segmento especial (CDCM- Mulheres Vivas). Experiência com formações e seminários relacionados à violência familiar, sexual, de gênero, raça e classe. Colabora e constrói as redes 8M na quebrada, Periferia Segue Sangrando, Rede Mamas Quebras, Escuta Liberta e Perifanálise. Atua em atendimento clínico somente para mulheres.

Centro de Estudos Periféricos: 50 propostas para transformar cidade a partir das margens

Por Thiago Borges

Servir café da manhã gratuitamente em restaurantes públicos e retomar a ideia de sacolões nos bairros. Promover espaços de convivência entre mulheres e garantir geração de renda a partir da vida nos bairros. Mapear terrenos na cidade, dar assistência técnica para “autoconstrução” e regular o preço dos aluguéis. Criar linhas de ônibus entre os bairros e potencializar pólos de desenvolvimento nas periferias.

Essas são algumas das 50 propostas que compõem a “Agenda propositiva das periferias”, um documento com 10 temáticas elaborado pelo Centro de Estudos Periféricos (CEP), formado por pesquisadores e pesquisadoras que vivem em periferias e que é vinculado ao Instituto das Cidades – o campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na periferia da Zona Leste.

Em março, o grupo já havia divulgado 23 propostas para combater o coronavírus nas quebradas. A agenda atual ainda não está disponível para o público, mas o CEP tem feito debates públicos sobre os “Dilemas das periferias pensados pelas periferias” todas as quintas-feiras, às 19h, pelo youtube. Nesta semana, o encontro discute se as quebradas não acreditam mais em eleições.

Segundo Tiaraju Pablo D’Andrea, pesquisador do CEP e professor de Sociologia Urbana e Sociologia Cultural no Instituto das Cidades, a agenda tem 2 objetivos: pressionar o Estado a melhorar atuação nas periferias; e convidar a população a se auto-organizar. Apesar de extrapolar a pauta eleitoral, Tiaraju diz que a pesquisa foi procurada por diversos candidatos e candidatas a vereadores e prefeito de São Paulo no pleito municipal que acontece em novembro deste ano.

“Se alguma candidatura quiser utilizar, a gente concorda e acha importante para incidir nas políticas públicas”, observa Tiaraju. “Mas muitas das propostas são pra própria população se organizar nas quebradas”, reforça.

De baixo para cima

Na avaliação de Tiaraju, a população das periferias tem participado pouco das decisões políticas. “Antes, se pensava numa creche boa pra todo mundo, numa praça para todos os moradores. Hoje, isso diminuiu de frequência, de tamanho e acontece em determinados nichos”, analisa.

Entre esses locais de participação, estariam as igrejas (principalmente), os coletivos de cultura, os movimentos sociais e, com pouca aderência, os partidos políticos. Uma novidade, desencadeada pela necessidade da pandemia, é o surgimento ou fortalecimento de redes de solidariedade – mas é preciso entender se elas vão se sustentar no futuro próximo.

“A população, no geral, tá discutindo pouco o seu entorno. Os vizinhos vêm se encontrando pouco para discutir coletivamente a solução dos problemas”, explica Tiaraju.

Por isso, as propostas que ampliam a participação política e possíveis transformações da vida na cidade foram elaboradas a partir das quebradas.

Fundado oficialmente em maio de 2018, o CEP reuniu 32 pesquisadores e estudantes para realizar essa agenda. Elas e eles partiram das próprias experiências acumuladas ao longo das próprias vidas para elaborar o documento. A partir disso, se debruçaram em livros para entender o processo de “periferização” da cidade de São Paulo e partiram a campo para entrevistar outros moradores de periferias.

A partir daí, a pesquisa apresenta sugestões organizadas em 10 eixos temáticos: cultura, gênero, habitação, transportes, educação, participação popular, genocídio e violência, infâncias, saúde e trabalho.

“A periferia deve se reunir, se reforçar e ter um projeto político para que alcance os espaços de poder”, completa Tiaraju.

6 meses de pandemia nas periferias: Medo de morrer, falta de grana e sofrimento mental

Por Thiago Borges

Daniela foi ao hospital com dores no peito e acabou internada sem sequer poder se despedir do marido. Hospitalizada por 5 dias, teve medo de morrer com covid-19, mas se recuperou. Já Marileide, desempregada e com depressão, teve uma piora na saúde mental. E Vanessa, que tem uma filha de 6 anos e um bebê de 7 meses, está preocupada com a redução do auxílio emergencial para R$ 300 por mês.

Esse é um recorte da realidade meio ano após o início da pandemia.

Com informações desencontradas entre diferentes esferas governamentais, parte da população voltou ao trabalho e para atividades corriqueiras do pré-pandemia, como frequentar praias, bares e academias de ginástica. A curva de mortes e de casos de covid-19 no País ensaia uma queda depois de semanas em um platô de cadáveres. Na cidade de São Paulo, o impacto é maior entre a população negra e nas periferias.

As 3 moradoras de diferentes periferias da Grande São Paulo enviaram seus relatos sobre os 6 meses de pandemia pelo whatsapp da Periferia em Movimento. Confira abaixo.

No dia 12 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou pandemia de coronavírus. Naquela ocasião, lançamos 16 perguntas sobre o impacto disso nas periferias. Desde então, tentamos responder algumas delas em mais de 70 reportagens com denúncias das condições de prevenção à doença, manutenção da renda e a garantia de direitos fundamentais pelo poder público.

Aperto financeiro

Vanessa Freitas, de 26 anos, tinha acabado de ganhar bebê quando tudo mudou repentinamente. Seu filho tinha apenas 1 mês de idade quando a pandemia foi decretada. “Eu fiquei totalmente apavorada com a situação. Fiquei muito preocupada com ele, minha mãe já idosa e minha outra filha, de 6 anos”, conta ela, que mora com o marido no Jardim Gaivotas, Extremo Sul de São Paulo.

Nas primeiras semanas, a quebrada aquietou por conta da apreensão diante do que poderia acontecer.

“Agora, tudo meio que ‘voltou ao normal’. Já vejo bem mais reuniões em família, pancadão, etc”, observa Vanessa. “Mas eu até entendo, de verdade. A situação não tá fácil. Vários manos perdendo trampo, passando fome, dificuldade. A pessoa fica de cabeça cheia, acaba tirando um lazer em meio ao caos”.

Vanessa, por outro lado, evita sair: vai ao mercado, à farmácia e ao posto de saúde para as vacinas de rotina do bebê. Algumas vezes, foi distribuir marmita a moradores em situação de rua no Centro e na favela Sucupira, no Grajaú.

“Governantes? Não temos. Se nóis não cuidar da gente, nóis tá perdido, mais do que já tá”, lamenta.

Desempregada desde antes da pandemia, ela se preparava para prestar vestibular de enfermagem e retomar os estudos. O sonho foi adiado. Seu marido, que é chapeiro, também está sem trabalhar. Vanessa teve seu auxílio emergencial negado, enquanto o companheiro conseguiu. Os R$ 600 mensais são a única fonte de renda da família, que conta ainda com a ajuda de parentes. Com a redução para R$ 300, a situação deve apertar ainda mais. “Mas é o que temos, fazer o quê?”.

Água fria

Marileide Lopes, de 43 anos, começou 2020 com algumas esperanças. Advogada de formação, ela estava desempregada há 2 anos, mas tinha perspectiva de ser convocada em um concurso público para a área de educação, ter uma renda estável e assim conseguir se preparar para voos mais altos em sua área de formação. A pandemia derrubou isso, ao menos por enquanto.

“Esse tempo matou algumas expectativas minha. Estou sem saber o que fazer. Eu já estava em um processo de depressão e toda essa situação me fez perder a fé”, diz ela, que mora em Cidade A.E. Carvalho, na Zona Leste de São Paulo. Antes das medidas de distanciamento, ela fazia acompanhamento psicológico pelo SUS, mas os atendimentos foram interrompidos. Nesse período, fez 4 sessões virtuais com o projeto voluntário “Histórias Cruzadas”.

Marileide saía pouco de casa. Agora, vivendo com pais idosos na mesma casa, ela sai mesmo ainda. A mãe tem 74 anos. O pai, 72, e é cardíaco e pretende voltar aos cultos na igreja evangélica. “Tenho muito medo de perdê-los”, reforça.

Da porta para dentro, tenta mudar a alimentação para aumentar a imunidade. Do lado de fora, nota muita gente circulando. “Talvez, a narrativa do atual presidente da República faça com que os moradores das grandes periferias não acreditem nessa pandemia”, reflete. “A pandemia atingiu muito mais o povo pobre e preto, e infelizmente o povo não enxerga isso”.

Sobrevivente

A recepcionista Daniela Leandro de Souza (na foto de capa desta matéria), de 40 anos, sente o impacto da pandemia de diferentes formas.

No começo, a empresa em que trabalha parou o atendimento e ela pode ficar em casa até meados de abril. Já seu marido, que é operador gráfico, não deixou de sair para trabalhar em nenhum momento.

Mas, com a crise, a firma reduziu a jornada e o salário dele, que recebe uma parte do pagamento pelo governo federal como medida para preservar empregos. “O governo demora para complementar a parte que lhe cabe, e isso atrasa um pouco nossa lado”, explica Daniela, que mora no Jardim São Vitor, em Osasco, região metropolitana de São Paulo.

As aulas de Sophia, filha do casal com 11 anos, foram suspensas. E a menina, que já fazia tratamento psicológico, desenvolveu ansiedade generalizada no isolamento. “Ela fica ansiosa por estar sozinha em casa, sente falta da escola e dos amigos”, diz a mãe.

Para piorar, Daniela pegou coronavírus mesmo sem sair de casa. Ela acredita que foi infectada pelo marido, e que ele e a filha não apresentaram sintomas enquanto ela desenvolveu uma pneumonia. Como o tratamento em casa não apresentou melhoras, no dia 01 de maio ela foi ao hospital do convênio médico.

“Fiz tomografia e fiquei aguardando na sala de espera. Depois, me mandaram entrar numa salinha e o médico já veio me avisar sobre a internação, pois a pneumonia tinha piorada”, relembra. “Nem pude sair pra avisar meu esposo na recepção do hospital. Foi desesperador! Eu só pensava na minha filha em casa, com medo de morrer e não ver mais ninguém”.

O quadro de Daniela evoluiu bem e ela voltou para casa após 5 dias. Sobrevivente, ela percebe um certo descaso com a situação. “Os ônibus continuam circulando lotados e com frota reduzida. Se perco o ônibus de 07h30 da manhã, outro só passa 07h50 ou 08h”, diz ela, que anda com álcool em gel e faz todos os processos de higienização.

Até esta segunda-feira (14/09), Osasco tinha registrado 426 mortes dentro do município e outras 325 de cidadãos locais fora do município. “Os governantes da minha cidade não se importam com a população”.

ASSISTA: A juventude periférica que tenta fazer dinheiro e transformar a realidade

O que é ser um empreendedor social?

A resposta para essa pergunta muda dependendo das vivências de quem a responde. E foi pensando em trazer a pluralidade desse conceito que nasceu a websérie Pense Grande Sua Quebrada, contada a partir da perspectiva de quatro jovens das periferias de São Paulo.

O projeto foi criado por 5 coletivos de comunicação (Alma Preta, Desenrola e não me enrola, Embarque no Direito, Periferia em Movimento e Agência Mural), que uniram forças para montar um roteiro que cumprisse o papel de democratizar a linguagem e o acesso ao universo do empreendedorismo social.

“Reunimos a proposta do programa Pense Grande da Fundação Telefônica Vivo e pensamos no que fazia sentido para a realidade das periferias”, compartilha Aline Rodrigues, jornalista e representante da Periferia em Movimento.

“Entendemos que todo o processo seria mais significativo se fosse feito em conjunto com os jovens. Muitos não se definem como empreendedores, mas estão sempre em movimento para criar soluções para sua existência em um cenário que não é favorável”, continua.

Para que este objetivo fosse cumprido, cada um dos 5 episódios da série foi produzido e dirigido pelos coletivos de maneira colaborativa. Todo o processo de pré-produção, produção e pós-produção foi realizado no ano de 2019 e contou com a participação de 22 jovens durante as gravações.

A história

Felipe, Carla, Vitória e Ícaro são jovens negros e moradores da periferia da Favela da Tula Pilar. A negritude e o lugar onde moram são apenas um dos fatores que os conectam, já que todos passam por diferentes dificuldades e problemas pessoais que vão sendo trabalhados, individualmente, ao longo dos episódios.

Obstáculos para ingressar no mercado de trabalho, desafios na infraestrutura familiar e acesso à educação, dúvidas sobre o futuro… Tudo isso é levado em conta quando Vitória enxerga a possibilidade de trazer propósito para os jovens de sua quebrada por meio de uma Batalha de Rima. E o que começou como uma simples ideia, acaba por inspirar as juventudes da periferia a expressar suas vozes.

ASSISTA:

Para driblar as dificuldades financeiras, Vitória encontrou um jeito de empreender para se virar. Criou um brechó on-line, onde divulga peças de roupa e faz a entrega pessoalmente para seus clientes. Aos 18 anos, se vê enfrentando um mercado de trabalho que pede por experiências incompatíveis com a realidade da maior parte dos jovens brasileiros de sua idade.

Felipe é um artista. Seu sonho é um dia trabalhar apenas com a música, tornando-se um rapper bem sucedido. Mas a realidade é diferente para ele, que casou muito cedo e trabalha vendendo balas em cruzamentos de farol na cidade para sustentar seus sonhos e a responsabilidade de uma vida a dois. Isso faz com que sobre pouco tempo e recursos para investir na carreira que tanto almeja, deixando em segundo plano seu objetivo de dedicar-se integralmente à arte.

Apesar de seu enorme talento para a matemática e o raciocínio lógico, Ícaro não reconhece seu potencial. O jovem mora com a mãe e perdeu seu pai muito cedo. Ainda sem espaço no mercado de trabalho, Ícaro sente-se inseguro em relação às outras pessoas que encontrará por lá, que julga serem mais talentosas do que ele.

Carla é apaixonada por tecnologia e seu sonho é trabalhar desenvolvendo sistemas e sites. Ela mora com a sua avó materna e trabalha em um comércio para ajudar nas despesas do aluguel da casa. A falta de oportunidade de estudo e as desigualdades racial e de gênero, ainda muito presentes na área de tecnologia, contribuem para ampliar a distância entre seus sonhos e a realidade.

O episódio final mostra o encontro dos 4 personagens em uma batalha de rima.

Coletividade como potência

Para desenhar os personagens e a linguagem da série foram levados em consideração os anseios, as dúvidas e os sonhos dos jovens, pensando o empreendedorismo a partir de suas perspectivas. Até o roteiro de falas foi escrito a muitas mãos, contando com mudanças feitas pelo próprio elenco na hora das gravações.

“As nomenclaturas na série não são tão importantes. A linguagem é a que o jovem usa no dia a dia na periferia. O roteiro é muito original porque é produto dos próprios atores, que fizeram mudanças importantes para que eles e outros jovens se reconhecessem naquelas falas”, conta Maxuell Mello, 24, produtor de conteúdo audiovisual e encarregado pela direção e edição do material.

Equipe durante gravação de episódio

Para ele, a interação e a união da equipe foi o grande diferencial. “A gente montou um time de produção muito unido e humano. Isso fez com que a série andasse. O convívio era muito bom, pudemos fortalecer a conexão que já tínhamos com os amigos e também conhecer outros jovens da quebrada que dividem a vontade de produzir conteúdo e arte. O que fica é esse carinho e admiração”, conta Max.

A trilha sonora que dá o ritmo à websérie é 100% original; Os coletivos contaram com a contribuição de artistas que disponibilizaram as músicas para serem usadas na série.

Thaís Siqueira, jornalista do Desenrola e Não Me Enrola, e Rebeca Motta, produtora cultural e jornalista do Embarque no Direito, concordam que a união das potencialidades e vivências de cada um determinou o tom da série.

“Foi muito interessante ver como toda a equipe estava empenhada em fazer o projeto acontecer. A comunidade tem muito disso: fazer um pelo outro. A gente era mesmo uma grande família”, conta Rebeca.

Já Thaís acrescenta: “O ponteiro do relógio de um jovem morador da periferia vive atrasado há muito tempo, e não é fácil tentar colocá-lo nos mesmos minutos e segundos de um jovem que não vive a mesma realidade. Mas a juventude periférica tem muito talento e ousadia naquilo que faz, o que falta é mais oportunidades e acesso a espaços que são negados a ela”.

(Des)construindo narrativas

“A série vem quebrar o imaginário que as narrativas constroem sobre o jovem da quebrada. Empreendedorismo na periferia vem da sobrevivência e é na busca de meios para contornar essas dificuldades que a gente soluciona os problemas”, diz Thamires Rodrigues, 23, jornalista do coletivo Desenrola e Não me Enrola e também a atriz que interpreta Vitória.

Quando descreve a personagem, Thamires diz que poderia descrever a si mesma. “Ela é uma garota muito pra frente. Tá sempre circulando pela quebrada, tentando arrumar uma solução para os problemas, além de agitar a galera pra pensar junto com ela”, diz.

Luís Lucas, 23, também se identifica com o personagem que interpreta. Apesar de nunca ter atuado antes, o jovem jornalista do Jardim Ângela diz ter se sentido muito acolhido, o que ajudou a tornar a experiência mais natural. “Assim como o Ícaro, eu também perdi meu pai muito novo e passei por um momento de dúvidas em relação ao meu futuro. Ele é um personagem muito inteligente, mas ainda não descobriu que caminho seguir”, descreve.

Cada personagem enfrenta desafios particulares e não há suporte externo que possa impulsioná-los na direção daquilo que acreditam.  É na coletividade, e entre os amigos, que encontram a oportunidade de imprimir suas vozes e narrativas no mundo. “É isso que a batalha de rima representa na série: a juventude se reunindo para expressar a cultura periférica e relembrar que, ali, já existe um potencial de mudança”, conclui Luís.

Corre eleitoral: Pré-candidaturas periféricas querem política de quebrada na Câmara

Reportagem por Thiago Borges. Edição de vídeo: Pedro Ariel Salvador

A primeira lembrança de atuação política de Elaine Mineiro é da própria família. Sua mãe, que era empregada doméstica, se mudou sozinha com os filhos pequenos para a Cidade Tiradentes (Extremo Leste de São Paulo) quando o bairro ainda não tinha asfalto, luz ou água encanada. Ela participou ativamente das lutas para conseguir o básico.

“Essa mesma mãe me colocou pra fazer teatro, e eu fui caindo pra essa coisa da cultura”, diz Elaine, hoje com 36 anos, mãe de uma menina e nome que representa oficialmente o Quilombo Periférico na disputa por uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo reivindicando uma cidade sem racismo.

A pré-candidatura coletiva é formada por 6 pessoas de diferentes pontos da cidade. Em comum, todas e todos vêm de uma atuação política construída nos territórios periféricos, em movimentos, coletivos e organizações sociais que lutam pela garantia de direitos humanos.

Confira no vídeo abaixo o querem essa e outras candidaturas periféricas:

Elaine, que integra o Jongo dos Guianás, ajudou a construir o Fórum de Cultura da Zona Leste e o Movimento Cultural das Periferias, além de integrar a rede de cursinhos populares Uneafro e a Coalizão Negra por Direitos. Débora Dias, moradora de Sapopemba (Zona Leste), também faz parte da Uneafro, assim como a ativista transgênero Samara Sósthenes (moradora da Luz, no Centro).

Quilombo Periférico: Candidatura coletiva defende cidade sem racismo (foto: divulgação)

O babalaorixá Julio Cezar de Andrade mora em Guaianases (também na Zona Leste), é assistente social e já foi conselheiro tutelar na mesma região. Já Erick Ovelha é do Jardim Ibirapuera (na Zona Sul da cidade) e faz parte da associação Bloco do Beco e do Ybirasamba. Próximo dali, no Campo Limpo, Alex Barcellos construiu sua trajetória na cultura e economia solidária atuando na Agência Solano Trindade e na União Popular de Mulheres do Jardim Maria Sampaio e Adjacências.

“A gente tem aquela máxima do candidato hétero branco que vai na quebrada pedir voto e some por 4 anos. A gente tem nosso projeto de vida, as pautas de vida que a gente reivindica”, aponta Erick Ovelha.

Quem te representa?

De fato, os dados mostram que há uma subrepresentatividade no poder Legislativo paulistano.

Nas últimas eleições municipais, em 2016, apenas 8 candidatos autodeclarados pardos e 2 autodeclarados pretos foram eleitos vereadores. Isso equivale a apenas 18,5% das 55 cadeiras da Câmara, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por outro lado, 37% da população da cidade de São Paulo se declara preta ou parda, segundo o IBGE.

Se lançar na disputa por um cargo na política institucional é buscar representar a si mesmo e àqueles com quem caminha lado a lado no cotidiano. Em meio à pandemia, por exemplo, muitas e muitos se envolveram em assistência básica à população, com doação de cestas básicas e outros insumos. É a correria da quebrada que querem pautar nas eleições municipais que acontecem em novembro. E não são os únicos.

Camilla Lima mora na Vila Fundão (Capão Redondo) e é candidata a vereadora pela Bancada Feminista (foto: divulgação)

Nascida e criada no Capão Redondo, a professora da rede pública Camilla Lima compõe a União da Juventude Socialista (UJS) e é pré-candidata pela Bancada Feminista.

A pré-candidatura coletiva do PC do B é encabeçada por Carina Vitral; e composta por Claudia Rodrigues, presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM) no município; e Nayara Souza, estudante universitária que presidiu a União Estadual dos Estudantes (UEE).

“Se a mulher pode cuidar da família, estudar, viajar, também está capacitada pra ocupar espaços de destaque na política”, explica Camilla. Após 2016, o número de vereadoras em São Paulo saltou de 5 para 11 (20% do total). “A gente precisa estar representada nesses espaços de poder pra pensar melhor as políticas para a população”, continua.

Para onde vai a grana?

Ainda sobre representatividade: numa cidade em que 40% dos vereadores atuais têm um patrimônio de mais de R$ 1 milhão, isso pode significar priorização de determinadas pautas em detrimento de outras?

Atento a isso, Jesus dos Santos defende justiça social.

“Nossa atuação se dará na disputa e descentralização do orçamento e maior participação popular, entendendo que as políticas não se efetivarem na redução das desigualdades”, diz ele.

Jesus dos Santos (segundo, da dir. pra esq.), em ato no dia 24 de agosto de 2020 no Palácio dos Bandeirantes cobrando audiência com o governardo João Doria sobre abordagens policiais (Imagem: divulgação)

Morador do Jardim Brasil (Zona Norte), Jesus também vem das artes e participou da criação da Lei de Fomento à Cultura das Periferias, articulada pelo Movimento Cultural das Periferias. Ele está licenciado do cargo de co-deputados estadual da Mandata Ativista (experiência coletiva que conseguiu uma vaga na Assembleia Legislativa em 2018) e agora é porta-voz da pré-candidatura coletiva A Periferia é o Centro, composta por 13 pessoas.

Quem também vem do trabalho político na cultura e na educação nas quebradas é Rafael de Almeida Silva, de 25 anos. Conhecido como Rafael Shouz (foto em destaque na matéria), ele passou por cursinhos populares e tem uma atuação como MC de batalhas de rap na região de Cidade Ademar (Zona Sul de São Paulo).

Agora, Shouz se lança pré-candidato a vereador com objetivo de representar a juventude periférica e articula outras candidaturas no Movimento Vote Perifa. “A periferia só vai ser beneficiada pela política quando ela for a política”, completa.

Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização das iniciativas de comunicação Alma Preta, Desenrola e Não me Enrola, Embarque no Direito, Nós, Mulheres da Periferia, Periferia em Movimento, Preto Império e TV Grajaú, com patrocínio da Fundação Tide Setúbal.

Patuás, cosmética e linguagem contra homofobia: Atividades on-line promovem “faça você mesmo”

No mês de setembro, as Fábricas de Cultura seguem com programação gratuita pela internet por conta do distanciamento social ocasionado pela pandemia de coronavírus. E nas próximas semanas, as redes sociais recebem atividades com objetivo de incentivar o “faça você mesmo”.

Para desvendar a importância do patuá, chamado também de amuleto ou balangandã, e a relação que o mesmo tem com a construção histórica do Brasil, a equipe das bibliotecas das Fábricas de Cultura apresenta a atividade “Quem não pode com mandinga não carrega patuá”. A ação acontece nesta segunda-feira (14/09), das 11h às 12h, e os participantes aprendem a fazer o próprio amuleto.

E quais frases homofóbicas que deveria ser abolidas do vocabulário?

Na quinta-feira (17/09), às 18h, Wanderley Montanholi (ator e dramaturgo no grupo Grito de Teatro, poeta no projeto “Poeta do Cotidiano” e advogado especializado em direitos da população LGBTQI+) aplica a atividade “10 Frases homofóbicas que você deve parar de dizer”.

Na atividade, ele apresenta frases comuns no cotidiano que carregam a homofobia e demonstra de maneira descomplicada o porquê da necessidade de parar de repetir esses padrões.

Em “Uma conversa sobre cosmética natural”, a equipe das bibliotecas ensina o público a fazer os próprios produtos de higiene, de cuidados com a pele e com o cabelo. A atividade ocorre no dia 22 de setembro (terça-feira), às 11h, e aborda os cosméticos naturais a partir de receitas simples de hidratantes e desodorantes.

Para crianças

Na terça-feira (15/09), às 11h, a equipe das bibliotecas das Fábricas de Cultura ensina o preparo de pão de queijo rápido e fácil para crianças realizarem com os familiares.

Já no dia 25 (uma sexta-feira), às 16h, a pedagoga Maria Cristina, mais conhecida como Maria Flor, conta histórias da infância, de quando brincava com bonecas de fuxico, técnica artesanal de reaproveitamento de retalhos de tecido, durante a atividade Boneca Terapia de Fuxico.

E como nas práticas ancestrais, ou seja, enquanto a turma ouve as narrativas, também pratica o exercício artístico de confeccionar a própria boneca com materiais que tem em casa, como retalhos, linhas, agulha e tesoura. Maria Flor mostra como essa prática colabora de forma terapêutica e para a autoestima.

Como ver?

Acesse o youtube ou facebook das Fábricas de Cultura, programa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo com gerenciamento da Poiesis.

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