#18vozes: campanha mostra formas de combater violências sexuais contra crianças e adolescentes

Como ensinar bebês sobre o direito ao próprio corpo e seus limites? De que forma acolher uma criança ou adolescente vítima de violência sexual? Qual é o papel do homem (e dos meninos) na desconstrução de uma masculinidade e heteronormatividade que contribui para o sofrimento de meninas cis, trans e travestis?

Para abordar essas questões, durante este mês de maio o projeto Sexualidade Aflorada publicou em sua página no Facebook a campanha #18Vozes, com vídeos com 18 pessoas que atuam no combate às violências sexuais infanto-juvenis na região Extremo Sul da cidade de São Paulo. Assista logo abaixo.

“Inclusive indo na contramão do que diz o atual Presidente da República, de que não devemos falar disso com crianças e adolescentes”, explica a psicóloga Elânia Francisca, idealizadora do projeto, que chama atenção para o caso da própria ministra de Jair Bolsonaro, Damares Alves, que foi vítima de violência sexual praticada por dois pastores evangélicos quando era criança. Leia aqui.

Há 10 anos, Elânia faz oficinas de gênero e sexualidade na quebrada. Nesse período, ela percebeu que ainda há uma demanda muito grande por informações sobre isso, mesmo entre quem trabalha atendendo crianças e adolescentes.

Ainda sobre isso, neste sábado (25/05) Elânia participa do Sarau Despertar, que vai abordar o assunto em uma roda de conversa. O sarau acontece a partir das 18h30, no Centro Comunitário Jardim Sete de Setembro. Saiba mais aqui.

Por que 18 de maio? Em 2014, foram registradas 24.575 denúncias de violência sexual (entre abuso e exploração) contra crianças e adolescentes em todo o Brasil, segundo a Fundação Abrinq. Para mobilizar a sociedade brasileira contra a violação dos direitos sexuais de crianças e adolescentes, 18 de maio foi estabelecido como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Em 1973, neste dia, a menina Araceli de 8 anos foi sequestrada, violentada e assassinada em Vitória (ES). Seu corpo apareceu seis dias depois, carbonizado, e os agressores nunca foram responsabilizados.

Confira os vídeos abaixo!

Dia 1: Como denunciar pelo Disque 100?

Quem nos ajuda nessa reflexão é Everton Borges, assistente social e morador do Extremo Sul de São Paulo, que foi coordenador da Rede de Enfrentamento às Violências Sexuais contra Crianças e Adolescentes na Capela do Socorro e é militante na defesa de direitos humanos de crianças e adolescentes.

Dia 02: É possível trabalhar prevenção à violência sexual com bebês?

A pedagoga e educadora Elaine Mendes, que mora no Jardim Ângela e é mãe e avó, explica como se aproximar de bebês e crianças pequenas respeitando seu espaço.

Dia 03: Como realizar uma escuta inicial acolhedora?

Quem faz essa reflexão é a assistente social Mayalle Fernandes, especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena e trabalhadora de um Serviço de Proteção a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência Sexuais (SPVV) no Extremo Sul.

Dia 04: Ensinar meninos a ter uma masculinidade tóxica também é violência sexual

Dizer a meninos que eles não podem chorar, que devem tratar meninas como inferiores ou incapazes de realizar certas atividades faz com que o desenvolvimento sexual seja prejudicado. Rafael Cristiano, do projeto Masculinidade Quebrada do Grajaú, partilha sua experiência no trabalho de educação em sexualidade com meninos adolescentes e provoca uma reflexão sobre masculinidades e violências.

Dia 05: Quais impactos da violência sexual vivenciada na infância podem gerar na vidas de mulheres adultas?

Denunciar casos de violência sexual contra crianças e adolescentes permite que a Rede de Proteção seja acionada e profissionais capacitadas (os) possam construir um processo de fortalecimento e ressignificação junto às vítimas. Mas o que acontece quando essas feridas não são cuidadas na fase em que a violência sexual aconteceu?

Quem explica é Cibele Bitencourt Silva, moradora do Extremo Sul que é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia Social pela PUC-SP e idealizadora do Projeto A fluir Psico.

Dia 06: Rede de Enfrentamento às violências sexuais contra crianças e adolescentes da Capela do Socorro e Parelheiros – Como ela pode ajudar?

Quem nos ajuda nessa reflexão é a assistente social Ilma Pereira, membro da Rede de Enfrentamento e trabalhadora de uma organização que trabalha diretamente no atendimento à crianças e adolescentes na comunidade em que reside. Ilma coordena o projeto Nós em Rede, que desenvolve ações de mobilização e educação em sexualidade na Capela do Socorro e Parelheiros.


Dia 07: Como homens adultos podem dialogar sobre masculinidades saudáveis com meninos?

Como vimos no vídeo do dia 04 de maio, a masculinidade tóxica ensina meninos adolescentes uma sexualidade que tem por base a violência como forma de obter prazer. Mas como homens adultos podem contribuir no rompimento desse jeito agressivo de ser homem? Quem aponta reflexões para as masculinidades saudáveis é Bruninho Souza, educador e mediador de leitura na Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura em Parelheiros.

Dia 08: As sutilezas das violência sexuais contra crianças e adolescentes

Racismo, machismo, cisnormatividade, heteronormatividade… O que tudo isso tem a ver com violência sexual? A reflexão é feita por Renato Xavier Santana, morador do Extremo Sul, psicólogo clínico e idealizador do Projeto Rascunhos de Gênero, que discute psicologia, sexualidade, relacionamentos e coisas do gênero.


Dia 09: Violência sexual contra meninas no contexto do futebol feminino

Jogar bola deveria ser a concretização da garantia do direito ao esporte e lazer, contudo não são raros os casos de meninas assediadas por técnicos e treinadores que deveriam compor a rede de proteção dessas meninas. Quem nos traz reflexões sobre a violência sexual no contexto do futebol é Silvani Chagas, jogadora, co-fundadora da Coletiva Perifeminas F.C. de Parelheiros.

Dia 10: Violência sexual contra meninas no ambiente escolar

Como temos olhado para os casos de violência sexual que vêm de homens que deveriam estar promovendo o direito à educação? Para dialogar sobre isso convidamos Lidia Sena e Thais Pires Vieira, da Coletiva Subversivxs, que executa ações de reflexão e acolhimento na região da Capela do Socorro.

Dia 11: Casamento Infantil

Você sabia que o Brasil é o quarto país com mais casos de casamento infantil no mundo inteiro? Ficamos atrás somente da Índia, Nigéria e Bangladesh. Esses dados estão disponíveis aqui.

E quem nunca disse (ou ouviu alguém dizer): “Minha avó se casou aos 13 anos e foi no laço”? O caso é que essa realidade, infelizmente, não é algo que só existiu “no tempo de nossa avó”… Precisamos falar sobre casamento infantil. E quem ajuda nessa reflexão é Cristiane Rosa, moradora do Grajaú, ativista e doula.

Dia 12: Como o adultocentrismo silencia direitos sexuais de crianças e adolescentes?

Adultocentrismo é a ideia de que a voz de crianças e adolescentes tem menos peso que a voz de adultos. E isso influencia negativamente a formulação de políticas para a infância, adolescência e juventude, pois desconsidera a escuta de meninos e meninas e acaba por criar projetos e programas pouco atraentes para o público que deveria ser central.

Quem nos ajuda nessa reflexão é Maria Eduarda Figueroa, a MaDu, jovem e moradora do Grajaú que atua há muito tempo na defesa do direito à participação e também na garantia dos direitos sexuais e reprodutivos.

Dia 13: Como violência sexuais afetam corpos de meninos gays?

Adolescência é um período de muitas transformações e descobertas. Apaixonar-se pela primeira vez, sentir desejo, perceber as mudanças que os afetos geram em nossos corpos… Tudo isso deveria ser um processo saudável de experimentações entre pares (adolescentes e adolescentes).

Contudo, se você for (ou tiver sido) um adolescente gay, talvez suas vivências não tenham sido tão saudáveis assim. Isso porque a heterossexualidade se apresenta em nossa sociedade de forma compulsória e faz com que pessoas não-hétero sejam punidas e violentadas única e exclusivamente por vivenciarem afetos.

Quem traz essa reflexão é Rafael Fernandes, assistente social num Centro de Cidadania LGBTI na cidade de São Paulo e morador do Capão Redondo.

Dia 14: Como a família pode atuar junto às crianças na prevenção de violências sexuais?

Que tal aproveitar a data para dialogar com as crianças mais novas em sua família? Quem ajuda a pensar sobre a importância de discutir essa temática com as crianças é Juliana Cardoso de Lima, assistente social, mãe e tia de crianças com quem tem realizado a tarefa afetuosa de construir possibilidades de cuidado e proteção.

Dia 15: Violências no namoro: O que nós adultos temos ensinado aos adolescentes sobre o amor?

Namorar, trocar afetos, beijinhos e carinhos… Parece uma delícia e, de fato, é! O problema é que muitos meninos e meninas (num relacionamento heterossexual) reproduzem modelos de namoro a partir do exemplo de adultos. O machismo afeta diretamente o modo como meninos e meninas criam laços afetivo-sexuais, logo também é uma espécie de violência que afeta a sexualidade.

Paula Dionisio, psicóloga e moradora do Extremo Sul, traz uma provocação sobre o que temos ensinado sobre amor e como meninos em meninas vão se inspirando em nós, adultos, para tecer relações muitas vezes opressoras.

Dia 16: Top 10: O que é e quais os desafios para a defesa de direitos de crianças e adolescentes?

Você já ouviu falar de Top 10? São vídeos feitos com objetivo de expor a intimidade e sexualidade de meninas e meninos (em sua maioria, meninos gays), categorizando-as (os) em “as dez mais vadias”. Os vídeos geralmente são feitos por adolescentes, o que nos traz um desafio: como pensar um processo de garantia de direitos e enfrentamento ao Top 10, uma vez que tanto vítima quanto ofensor têm a mesma faixa etária? Quem reflete sobre isso é Regiane Soares, feminista negra e membra dos Coletivo Rusha Montsho e ABAYOMI ABA Pela Juventude Negra Viva, que atua prioritariamente em Parelheiros.

Dia 17: Como a cisnormatividade promove a exploração sexual de meninas adolescentes transexuais e travestis?

Cisnormatividade é um termo usado para dizer que nossa sociedade só respeita e valida a existência de corpos cisgênero, invisibilizando as existências trans. Invisibilizar crianças e adolescentes trans é não priorizar sua proteção. E Samara Sosthenes fala sobre a violência sexual contra corpos de meninas trans e travestis que é gerada pelo não-acolhimento da sociedade.

Dia 18, Parte I: A música e a erotização de crianças e adolescentes

A música está em todos os momentos de nossa vida. O som do útero para os fetos, as canções de ninar para bebês… Mas as letras de música retratam algo que já existe na sociedade, e engana-se quem pensa que estamos falando exclusivamente de funk! É na letra do rock de Raimundos que o homem adulto diz que aquela menina já sabe brincar de fazer neném.

Para olhar sobre a erotização presente nas músicas, ouvimos Estela Cândido, musicoterapeuta e membra do Coletivo MT, que atua na região do Grajaú e Parelheiros com a Biblioteca Itinerante Feminista e rodas de musicoterapia para mulheres.

Dia 18, parte 2: O papel da Comunicação no enfrentamento às violências sexuais contra crianças e adolescentes

A campanha é finalizada com a reflexão de Aline Rodrigues, jornalista e educomunicadora na Periferia em Movimento, falando sobre o papel da comunicação na defesa de direitos sexuais e reprodutivos.

Saudades da Virada? Temos 04 rolês grátis pra você colar no fim de semana

Entre os dias 18 e 19 de maio, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo realizou mais uma edição da Virada Cultural. Com mais de 1.200 atividades acontecendo na cidade, o evento atraiu um público de mais de 5 milhões de pessoas – e que é apontado por alguns ativistas da área como entretenimento com objetivo de propaganda eleitoral.

Contra ou a favor ao evento, o fato é que a cultura na capital paulista vai muito além da Virada. E nas quebradas, ao longo do ano, agentes culturais promovem uma série de atividades ao longo do ano com pouco ou nenhum recurso.

Por isso, a Periferia em Movimento lista 04 rolês com música pra curtir no Extremo Sul de São Paulo neste fim de semana. Confira:

1. No sábado, das 15h às 22h, a Quadra da 18 (ao lado do Passa Rápido do Rio Bonito) abriga mais uma soundsystem com o Reggae da 18. A festa traz nos autofalantes as equipes Reggae Vibes, Andarilhos Dub, King Kelvin e Dub 2.0. Saiba mais aqui.

2. Do outro lado do Extremo Sul, nas margens da represa Billings, o coletivo Mandalas a Bordo organiza seu quinto encontro no Parque Linear Cantinho do Céu. Com arrecadação de agasalhos, o evento acontece das 12h às 22h. Saiba mais aqui.

Com a proposta de promover a cultura alternativa no território e um contato direto com a natureza, o evento traz diversos DJs com música eletrônica no som; intervenções de pintura corporal, pirofagia e pintura livre com diferentes artistas plásticos da região; oficinas de filtro dos sonhos, mosaico, mandalas, cactos, crochê, macramê, modelagem em argila, malabares e bambolê; e um espaço de cura com yoga, auricoloterapia, massagem vibracional, reiki e thetahealing.

3. No dia seguinte (domingo, 26/05), das 15h às 22h, o mesmo parque abriga o Ruffmystyle Reggae, a aparelhagem de som promovida pela Brutal Soundsystem. Do roots ao dancehall, nesta segunda edição do evento o grupo recebe também Andarilhos Dub para participar do line-up. Confira outras informações aqui.

Festival Quebramundo em 2018 (Foto: Quebramundo)

4. E no mesmo dia, o calçadão Centro Cultural Grajaú recebe o Festival Quebramundo 2019. O evento acontece das 15h às 22h, na rua Professor Oscar Barreto Filho, 252, no Parque América. Veja aqui.

O coletivo de audiovisual Quebramundo celebra a arte marginal com uma festa com pocket shows de Elias Bleckalt, Graja Minas e Monna Brutal, além dos DJs convidados Joseph Rodriguez, Michel Miranda da Silva (do Brutal SoundSystem) e Alice dos Santos, e dos poetas Diego Christiano, Anaya Alika e Tawane Theodoro.

A festa encerra o projeto “Da Quebrada para o Mundo”, que contou com o apoio do Programa VAI da Prefeitura de São Paulo para gravação de videoclipes de artistas periféricos, como o abaixo

Política nas margens: Proteção dos mananciais, baile funk e bate-papo com deputada trans Erica Malunguinho

Neste final de semana, as periferias da Zona Sul de São Paulo têm encontros sobre assuntos emergentes no cotidiano da sociedade. Do M’Boi Mirim ao Grajaú, a proteção aos mananciais, o funk na quebrada e a questão transgênero estão em debate.

No sábado (25/05), após a temporada do espetáculo “Pancadão! O Baile Segue?”, o Núcleo Pele de teatro encerra seu projeto de pesquisa com o Bailão dos Corpos em Pancadão. A partir das 14h, no Centro Cultural Grajaú, que fica na rua Professor Oscar Barreto Filho, 252, no Parque América, Extremo Sul de São Paulo. Saiba mais aqui.

O evento começa às 14h, com a mesa de diálogo “Como o funk atravessa a periferia?”, com a participação de Andressa Oliveira e Bruno Ramos, da Liga do Funk; Michel Quebradeira Pura e Celly IDD (Imperatriz da Dança), ambos da Cidade de Deus (no Rio de Janeiro) e que integraram famílias de “passinho foda”. Às 18h, Michel realiza uma oficina de passinho e, na sequência, tem show de encerramento com MC Cacau Rocha.

Enquanto isso, do lado de fora do Centro Cultural, o Calçadão Cultural do Grajaú recebe mais uma edição do Sarau Travas da Sul. Promovido por integrantes da comunidade LGBT+ da região, o evento recebe Erica Malunguinho para um bate-papo musicado.

Mulher negra, trans e natural de Pernambuco, Erica é mestra em estética e história da arte pela Universidade de São Paulo (USP) e criadora da Aparelha Luzia, um quilombo urbano que fomenta produções artísticas e intelectuais na capital paulista. Ela também atua na área de educação, voltada para a capacitação professores da rede pública e privada, e é a primeira transgênero eleita para o cargo de deputada estadual em São Paulo.

Foto: @foxnvnd.pix @regispalheta

Além disso, o sarau conta com brechó, oficina, bar, microfone aberto e discotecagem dos DJs Gloob e Joseph, as peças de teatro “As cores do amor” e “Flor do Asfalto”, shows com as dragqueens Tia Franny, Izabella Safira e Abapurana e os “bocket shows”de Aylee, Willy, Sanara Santos, Marquez, Warley Noya, Gê de Lima e MC Dellacroix. A partir das 16h. Saiba mais aqui.

Abraço à Guarapiranga

Já no domingo (26/05), acontece a 14ª edição do Abraço Guarapiranga, uma manifestação de respeito e carinho da população com as fontes de água de São Paulo. É também um ato de denúncia e indignação contra descuido com a preservação dos mananciais.

A proposta é mobilizar e alertar os cidadãos, as empresas e todos os níveis dos governos para a urgência de se construir uma nova cultura de cuidado com a água – desde p tratamento de esgoto até os desperdícios da própria Sabesp que geram crises de abastecimento em tempos de seca.

O abraço se estende por cinco pontos de bairros da Zona Sul e municípios da região metropolitana que se encontram à margem da represa Guarapiranga.

No Jardim Ângela, o encontro ocorre na rua Durval Soares da Silva – altura do número 4680 da Estrada da Riviera, onde será realizada uma missa campal às 10h, seguida de plantio de mudas.

No Jardim Horizonte Azul, o local do abraço é o Clube Esportivo Náutico Guarapiranga, que fica na avenida dos Funcionários Públicos, 2501. No local, a partir das 09h acontecem monitoramento de qualidade da água com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente; Trilha das águas; apresentações culturais do CEU Vila do Sol; e plantio de mudas.

Em Itapecerica da Sera, o encontro é na rua Cesário Verde, 360, no Jardim Jacira. Às 08h ocorre uma missa na Paróquia Santíssima Trindade, seguida de caminhada até a represa, onde ocorrem um café comunitário, coletiva de recicláveis com a cooperativa de catadores, apresentação de balé de crianças e plantio de mudas.

Na outra margem, do lado da Capela do Socorro, a partir das 09h o Parque da Barragem tem oficinas de sustentabilidade, atividades ambientais e exposições. Às 10h, ocorrem shows e atividades culturais, seguidos de plantio de mudas. O parque fica na altura do 1100 da avenida Atlântica.

Já no Clube de Campo do Castelo, que fica na rua Celso Mantovani, 01, tem caminhada, coleta de recicláveis, oficinas, atividades ambientais, plantio e distribuição de mudas, medição da qualidade da água e apresentações culturais.

Ao meio-dia em ponto, os cinco locais de concentração fazem o Abraço à represa Guarapiranga. Saiba mais aqui.

#NossoBonde: “Os próximos 10 anos podem ser de muito crescimento para quem luta por direitos”

Foto em destaque: José Cícero da Silva

Os últimos 10 anos foram de muita evolução para as periferias. E, apesar da mudança de rumos na política e a tomada de um outro viés ideológico, mais bruto e menos afetivo, os próximos 10 serão de aprendizado e reconstrução das bases com mais consolidação.

É assim que Alex Barcellos enxerga passado e futuro.

Com 39 anos, morador de Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo), ele é articulador e produtor cultural da Agência Solano Trindade, que promove o desenvolvimento das economias periféricas, solidária e da cultura com coletivos e movimentos das periferias paulistanas. “Esse trabalho conjunto da economia, algo tão importante e vital no desenvolvimento dos territórios periféricos e que estão à margem do grande centro”, conta.

E é por isso que Alex Barcellos faz parte de #NossoBonde, série que a Periferia em Movimento publica todas as segundas-feiras de 2019. Neste ano em que completamos uma década de jornalismo de quebrada, convidamos moradoras e moradores das quebradas que nos ajudaram a refletir sobre a realidade na perspectiva periférica ao longo desse período – e, também, pra saber como imaginam os próximos 10 anos.

“Economia solidária é mais do que geração de renda e emprego, e sim de transformação social”

Alex Barcellos, em entrevista em 2017

Nesses 10 anos que se passaram, Alex viu o crescimento de pequenos negócios, do desenvolvimento territorial, com mais acesso a moradia e transporte, mesmo que precário. Tudo isso, obviamente, fruto da luta de movimentos sociais, com mulheres à frente.

Foto: Cassimano
Festival Percurso de Economia Solidária, em 2015. Foto: Cassimano

Essas ações conjuntas, desde a poesia no sarau à oficina na escola, permitiram ampliar a troca de saberes e denunciar violências, como o feminicídio, o genocídio contra a juventude negra e periférica, o genocídio indígena e a LGBTfobia, por exemplo.

“De tantos coletivos que se somaram e se juntaram na parte cultural, com ações conjuntas de desenvolvimento de rede, da oportunidade de informação na comunicação periférica”, destaca.

Não por acaso, Alex vê o avanço da pauta conservadora como reação às conquistas das periferias: “Nessa disputa ideológica na maioria das vezes agressiva, perdemos um pouco de afetividade, humildade”, diz ele, para quem isso vai reverberar no futuro.

Por outro lado, é otimista: os próximos 10 anos serão também de crescimento e aprendizado. Assim esperamos, Alex.

Foto: José Cícero da Silva

#QuebradaGourmet: Sonego Bistrô tem cardápio criado por jovens que aprendem alta gastronomia na quebrada

Do Canal Quebrada Gourmet. Clique e acesse!

Criado em parceria com a ONG Orpas, o Sonego Bistrô está sob comando de Matheus, um chef de apenas 19 anos que passou por uma formação na quebrada. O espaço funciona na rua João de Santana, 358 – Chácara Santana – Zona Sul de São Paulo.

O cardápio é criado por jovens capacitados pela Gastronomia Periférica, escola de alta gastronomia na região, e a cozinha tem pratos conceituais e cervejas artesanais feitas até com PANCs (plantas alimentícias não convencionais). Na comunidade, tem engajamento e articulação com diferentes projetos sociais.

Neste episódio, a série “Quebrada Gourmet” apresenta o espaço. A Periferia em Movimento é parceira do projeto na distribuição dos vídeos. Assista:

Semanalmente, você confere na Periferia em Movimento os vídeos do Quebrada Gourmet, um canal de vídeos que dá visibilidade e conta a história dos melhores restaurantes das quebradas de São Paulo, destacando os empreendimentos e promovendo informação cultural. A equipe recebe sugestões de outros estabelecimentos. Escreva para [email protected].

#Matriarcas: Mãe de 08 filhos e vó de uma quebrada inteira, Cidona “samba” sobre os perrengues

Texto por Thiago Borges. Idealização: Lucimeire Juventino. Reportagem, roteiro e edição: Evelyn Arruda, Lucimeire Juventino, Pedro Ariel Salvador e Wilson Oliveira.

Aparecida Maria Antônia Inocêncio é trabalhadora da educação aposentada, mas nunca deixou de ser educadora. Pariu 08 filhos, tem 12 netos e 04 bisnetos de sangue, e é avó de uma quebrada inteira. Pelo bairro do BNH, no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), é comum pedirem bênção pra “Vó Cida”.

No trajeto até o “bar dos professores”, onde ela pediu pra gravar a entrevista, entre um gole e outro de cerveja a mulher de 72 anos lembrava dos perrengues e conquistas que viveu nas últimas quatro décadas desde que chegou ao fundão da periferia – da ditadura que silenciava moradores às rodas de samba que deram origem à primeira agremiação local a desfilar no Carnaval paulistano.

Cidona é a personagem do terceiro episódio de “Matriarcas”. Idealizada pela escritora e professora Lucimeire Juventino e realizada pela Periferia em Movimento, nesta série de reportagens contamos histórias de mulheres que cavaram os alicerces de lutas por direitos que continuam fortes até os dias de hoje.

Confira o vídeo:

Saiba mais sobre a história de Cidona

Filha adotiva, Cidona nasceu em 1947 e cresceu no bairro do Bom Retiro (Centro de São Paulo) até os 18 anos. Já casada e com filhos, passou alguns anos em Itaquera (zona Leste), além de viver por um período na Freguesia do Ó (zona Noroeste). Em 1975, ela se mudou com a família para o Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo.

Como a própria Cidona conta, nessa época o “fundão” não tinha nada: faltavam lojas, quitandas, padarias… Havia poucas escolas, o transporte era feito por poucos ônibus esburacados da viação Sete de Setembro e as ruas não eram asfaltadas. Com a construção da COHAB Brigadeiro Faria Lima (bairro hoje conhecido como BNH), uma caixa d’água passou a abastecer os moradores de forma racionada – só tinha água disponível das 08h às 10h e das 17h às 20h.

Em 1976, a Prefeitura de São Paulo inaugurou a EMEF Joaquim Bento Alves de Lima Neto e Cidona começou a trabalhar como agente escolar perto de casa. Como funcionária pública, ela se articulou com movimentos de educação, conheceu a ex-prefeita Luiza Erundina e trabalhou no gabinete de secretários responsáveis pela pasta na gestão da ex-prefeita – os educadores Paulo Freire e Mario Sérgio Cortella.

Foram 37 anos de dedicação ao serviço público, muitos deles ainda sob a ditadura militar. As crianças brincavam pra fora do portão, mas após às 20h quem estivesse na rua precisava andar com a carteira de trabalho assinada pelo empregador. “Hoje, você mostra o RG pra polícia e é liberado”, diz ela.

Foi nessa época também que Cidona se divorciou do marido, um tabu para época, e passou a cuidar sozinha dos 08 filhos – 05 deles ainda vivos. Nas dificuldades, levava os filhos com ela para o trabalho, contava com apoio de amigas e hoje seu matriarcado se estende sobre 12 netos e 04 bisnetos.

Mas todo mundo tem um laço com ela, mesmo que não seja de sangue: na quebrada, ela é conhecida como “vó Cidona”. E essa vida na comunidade coroa Cidona. Entre uma cerveja e outra, ela se lembra de quando apelidou de “Buracanã” um campinho de futebol de várzea próximo de onde hoje ocorre o famoso Pagode da 27 – uma das rodas de samba que ela frequenta para matar a saudade dos tempos da Flor Imperial do Grajaú, primeira escola de samba da região, na qual ela desfilava e participava da gestão cotidiana.

E assim, no sapatinho, ela samba na avenida da vida.

Cortar na educação é aprofundar desigualdades, diz professor periférico de universidade federal da Zona Leste

O sujeito periférico é o indivíduo nascido e criado em uma periferia e que, a partir do entendimento dessa condição social e influência de ações culturais (do RAP aos saraus), passa a agir politicamente pra mudar sua própria realidade. Isso é o que defende a tese de Tiaraju Pablo D’Andrea, 39 anos, ele mesmo um “sujeito periférico” que agora age contra os cortes do governo de Jair Bolsonaro na educação.

Nesta quarta-feira (15/05), outros milhares de estudantes, pesquisadores e trabalhadores da educação em todo o Brasil saem às ruas para protestar contra a medida anunciada no final de abril pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. A tesourada nas universidades e outras instituições de ensino federais congela 30% da grana para despesas não-obrigatórias, como luz, água, internet e serviços terceirizados.

Criado em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, Tiaraju é fruto da educação pública e atravessou pontes em busca de conhecimento. Para entender melhor a realidade à sua volta, ingressou na Universidade de São Paulo (USP) em uma época em que os periféricos eram apenas 3% dos matriculados. Enfrentou preconceitos e graduou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Sociologia Urbana e doutorado em Sociologia da Cultura pela mesma instituição.

Com pós-doutorado em Filosofia com estágio de pesquisa na Universidade Paris-VIII, na França, desde 2018 Tiaraju é professor de Sociologia Urbana e Sociologia Cultural no Instituto das Cidades – o campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na periferia da Zona Leste. “Sou um oriundo das periferias que conseguiu virar professor de universidade federal. Eu sou uma espécie de caso raro com outros poucos colegas”, diz ele.

A Unifesp da ZL é resultado de uma luta que vem desde a década de 1980. E nos anos 1990, movimentos sociais visitaram universidades públicas para reivindicar sua implementação em uma região com mais de 4 milhões de habitantes. Em 2011, por determinação da então Presidenta da República Dilma Rousseff, a Unifesp iniciou a expansão no Estado. Nos anos seguintes, com audiências públicas, seminários e workshops, formulou o Instituto das Cidades para abordar crises recentes e pesquisas soluções para mobilidade, água e saneamento, moradia, violência, entre outros.

Aprovado para funcionar em Itaquera, na prática o campus ainda não existe. “A gente precisa de recursos pra virar um campus de verdade. E a partir do governo Bolsonaro, piorou a nossa situação porque a perspectiva de chegar recurso pra construir já era muito pequena, e agora ela quase nem existe”, explica Tiaraju.

O temor é de que as atividades na ZL sejam paralisadas e os professores transferidos para outras unidades. “A gente era o último da fila, e com os cortes é capaz do governo sacramentar o fim do nosso sonho de ter uma federal na Zona Leste”, aponta.

Tiaraju lembra que é importante a região se mobilizar por esse campus e contra os cortes na educação pois isso “tá impedindo o desenvolvimento mais democrático na sociedade”, diz.

“Quanto mais cortes você tem na educação pública, mais está transformando a educação em algo mais elitizado, pra quem pode pagar”, aponta ele, que defende recursos em todos os níveis, do básico ao superior, e principalmente nos territórios periféricos. “O corte desses recursos significa continuar reproduzindo ciclos da nossa pobreza e aprofundando a desigualdade social”, completa.

Greve da educação: Como os cortes de Bolsonaro afetam as periferias?

Vanessa e Diana acreditam no potencial transformador da escola pública. Evelyn quer quebrar o tabu das normas acadêmicas com a linguagem periférica. Já Gisele quer construir uma visão diferente sobre as periferias na academia, enquanto Helder anseia mudar a estrutura da sociedade com as políticas públicas.

Elas e ele têm origem nas bordas da cidade, estão na universidade pública com objetivo de devolver o conhecimento obtido para as quebradas, mas agora temem pelas medidas tomadas pelo governo de Jair Bolsonaro na educação.

Nesta quarta-feira (15/05), outros milhares de estudantes, pesquisadores e trabalhadores da educação em todo o Brasil saem às ruas para protestar contra os cortes prometidos pelo governo federal. Em São Paulo, o ato acontece a partir das 14h na avenida Paulista, com concentração em frente ao MASP.

Ato na Unifesp, em Guarulhos, na véspera da grande greve: estudantes votam por paralisação

Anunciada no final de abril pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, a tesourada nas universidades e outras instituições de ensino federais não atinge o salário de professores e funcionários concursados, mas congela 30% da grana para despesas não-obrigatórias, como luz, água, internet e serviços terceirizados.

“Com isso, meu campus pode funcionar só até setembro. Então, se eu ia terminar a faculdade em 2021, agora não sei mais e esses anos serão em vão porque pode fechar”, preocupa-se Evelyn Arruda, de 19 anos.

Moradora do Cantinho do Céu, no Extremo Sul de São Paulo, desde 2017 Evelyn estuda Letras no campus de Pirituba do Instituto Federal (IFSP). A instituição inaugurada em 2016 atende turmas do Ensino Médio, Técnico e Superior – a maioria, de periferias, como a própria Evelyn e sua amiga, Diana Cristina.

Com 20 anos, Diana mora no Grajaú e também estuda Letras com um objetivo nítido: “Tive grandes professores que me serviram de inspiração e hoje eu sei que eu quero dar aula e poder ajudar algum aluno”, conta ela. Porém, com a ameaça de paralisação das atividades, esse desejo parece mais distante.

Também do Grajaú, há 4 anos Vanessa Cândida Lourenço cruza a região metropolitana até o bairro de Pimentas, em Guarulhos, para estudar Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A jovem de 20 anos decidiu pelo curso após participar do grêmio estudantil, onde enfrentava problemas de infraestutura e autoritarismo da gestão da escola. A participação em coletivos da região que militavam em pautas como moradia, meio ambiente, educação e gênero reforçou a escolha.

“Minha expectativa desde que escolhi as Ciências Sociais era dar aula no Ensino Médio, entendendo a educação como uma área chave e de continuidade da nossa atuação, ainda mais em tempos de escola ‘sem’partido e reforma do Ensino Médio”, lembra Vanessa.

O plano era se formar no meio do ano que vem. Com os cortes, a certeza virou dúvida. “A Universidade Federal do Paraná (UFPR), por exemplo, já informou que se o corte seguir só consegue continuar aberta pelos próximos três meses – condição que outras universidades como a Unifesp também compartilham”, lamenta.

Ataque direcionado

Se o poder emana do povo, é sob o controle e usufruto do povo que as universidades devem estar. Assim acredita Helder França, de 27 anos. Morador de Taboão da Serra, o advogado de formação e técnico em medida socioeducativa ingressou no mestrado de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) porque acredita na mudança desse sistema racista, machista, LGBTfóbico e classista por meio da luta popular.

“Expandir nosso conhecimento e lutar por políticas públicas, mesmo que não sejam radicalmente transformadoras, têm o potencial de fomentar a conscientização coletiva para uma sociedade menos desigual”, aponta. “Pela ciência, a gente consegue trazer resultados que vão ser beneficio pra própria população”, complementa.

Helder nota que as prioridades do governo vão no sentido contrário dos interesses da população. Vanessa aponta que os cortes no Programa Nacional de Assistência Estudantil (que em muitos casos é o que garante a permanência de estudantes de baixa renda na universidade) e nas bolsas de iniciação científica, além do ataque a cursos de humanas, são uma forma de expulsar negros e periféricos do ensino superior. A jornalista Gisele Brito, de 33 anos, tem convicção disso.

“Nunca tantos negros e periféricos entraram na universidade. Isso influencia na própria pesquisa, porque estamos pesquisando o racismo, o machismo e pautando as periferias com um olhar diferente do que tem sido feito na universidade”

Gisele Brito

Criada no Grajaú, Gisele entrou no Mackenzie com bolsa da primeira edição do ProUni (Programa Universidade para todos), em 2005. Agora, ingressa na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) para pautar o projeto de cidade construído pelos movimentos culturais que emergiram nas quebradas nas últimas décadas. “Acho que isso vai contribuir para que se mude a ideia que se tem das periferias hoje, e para que se construam políticas públicas melhores”, diz ela.

Agentes culturais periféricos em marcha após 30 horas de ocupação histórica da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 2017 (Foto: Wilson Oliveira / Periferia em Movimento)

Pela primeira vez, a FAU-USP adotou a condição socioeconômica dos candidatos para conceder bolsas de R$ 1.500 que é paga para mestrandos para desenvolverem suas pesquisas. Gisele ficou em terceiro lugar após responder uma série de perguntas, inclusive sobre a renda mensal de seus pais.

“O que acontece quando você tem em um cenário de perseguição e corte de bolsas? Isso faz com que o pesquisador fique mais vulnerável e precarizado”, diz ela.

Gisele nota que a tesoura nas verbas de custeio também tem um público-alvo: do bandejão à cota para impressão, os cortes atingem principalmente as pessoas de baixa renda, negras e periféricas, que dependem desses subsídios para continuar estudando.

“Quando você corta isso quando os pretos chegam à universidade, você tá cortando a transgressão nas linhas de pesquisa, de repensar conceitos a partir de outros lugar”, observa. “Não é à toa. Eles falam em ‘balbúrdia’, mas o que tá acontecendo é uma mudança de pensar o mundo, que é o jeito de pensar da população preta e periférica”, conclui.

#NossoBonde: “Que a escola seja o lugar onde aprendamos a conviver, respeitando diferenças e reconhecendo a diversidade”

Pra que serve uma escola?

Em tempos de perseguição a professores estimulada por parte dos governantes, cortes nos investimentos e infraestrutura, as condições em sala de aula continuam precárias. Mas na periferia da Zona Sul de São Paulo, uma escola pública se tornou referência na relação com a quebrada do entorno e transformação do bairro em um território educador: a EMEF Sócrates Brasileiro, no Jardim Olinda, que nos últimos 10 anos foi dirigida por Solange Amorim.

“Sabe aqueles conceitos da pedagogia que só conhecíamos a teoria e tantos outros que a dinâmica viva da realidade pulsante das escolas, com seus desafios e contradições, nos obriga a criar? Então, foram anos de muita aprendizagem, sobrevivendo a toda sorte de problemas, desafiando limites, alargando olhares”

Solange Amorim, ex-diretora da EMEF Sócrates Brasileiro

Solange faz parte do #NossoBonde, série que a Periferia em Movimento publica todas as segundas-feiras de 2019. Neste ano em que completamos uma década de jornalismo de quebrada, convidamos moradoras e moradores das quebradas que nos ajudaram a refletir sobre a realidade na perspectiva periférica ao longo desse período – e, também, pra saber como imaginam os próximos 10 anos.

Território do Povo

Com 49 anos, Solange vive desde 1977 na Zona Sul de São Paulo e trabalha desde 1990 como professora na rede pública de ensino. Iniciou a carreira na rede estadual e, a partir de 1999, ingressou no sistema municipal. Em 2010, ela pede exoneração ao governo do estado para dirigir a EMEF Campo Limpo I.

Aberta um ano antes, essa escola teve o novo nome escolhido a partir de várias atividades interdisciplinares, com participação de pais, alunos e professores. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi então escolhido como patrono do colégio por sua atuação como esportista, como médico e, principalmente como defensor da democracia.

O homenageado, que morreu em 2011 aos 57 anos, é considerado um dos maiores jogadores do futebol brasileiro e é conhecido também por sua atuação política, por ter liderado a Democracia Corinthiana, que reivindicava aos jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube, e por ter participado do movimento Diretas Já!

Minifloresta da Sócrates (foto divulgação)

Para reagir e mudar a situação, a direção fortaleceu o grêmio e o próprio conselho escolar, fomentando o protagonismo de crianças e adolescentes e aguçando seu olhar crítico para o que acontecia dentro e fora da escola. Depois, buscou outros agentes de saberes da região, como a Associação de Amigos do Jardim Olinda, o Sarau do Binho, a Brava Companhia de Teatro, a Escola de Samba Acadêmicos de Campo Limpo, o coletivo Kores Valores Crew, entre outros.

À frente da EMEF Sócrates, Solange e a comunidade ocuparam um terreno baldio ao lado da escola, onde hoje tem uma minifloresta com mais de 150 espécies da Mata Atlântica e uma horta comunitária. Essa articulação deu origem à luta popular pela ocupação social do terreno, denominada Território do Povo, que reivindica a construção de um galpão cultural no espaço.

O muro ganhou um graffiti e o projeto ganhou reconhecimentos, como Prêmio de Educação em Direitos Humanos (2016), o Prêmio Paulo Freire de Qualidade de Educação Municipal (2017) e o prêmio da chamada aberta da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo.

“Os meus 10 anos nesse território possibilitaram-me enxergar a potência cultural desse lugar em suas mais diversas manifestações, a resistência e a capacidade criativa da periferia em produzir conhecimento, novas formas de vida, driblando a dor e as desigualdades”

Solange Amorim

Hoje, Solange atua na Diretoria Regional de Ensino (DRE) do Campo Limpo, onde trabalha pela ampliação dos territórios educadores pela região. Para a próxima década, ela espera uma pedagogia subverta o apartheid social já na educação infantil e seja capaz de formar pessoas comprometidas com o coletivo, a democracia, a justiça social, o meio ambiente e o planeta.

“Que a escola seja o lugar onde aprendamos a conviver, respeitando as nossas diferenças e reconhecendo a nossa diversidade. Que haja liberdade para pensar e estudar e que o conhecimento produzido esteja a serviço da vida contra qualquer forma de opressão e exploração, e não do lucro”, finaliza.

#QuebradaGourmet: Em Pirituba, Casa da Árvore é lugar de comidas e ideias

Do Canal Quebrada Gourmet. Clique e acesse!

Próximo à estação de trem e terminal de ônibus de Pirituba, a Casa da Árvore é praticamente um centro cultural. Com oficinas, exposições de artistas independentes, espaços de trabalho colaborativos e abriga eventos culturais, o estabelecimento abre de quinta a domingo na avenida Dr. Felipe Pinel, 305.

Sob o comando o Chef Bob Crânio, a Casa traz opções modernas no cardápio e rústicas, como pudim cozido na lata (que se desenforma na mesa do cliente), uma sobremesa de brigadeiro de Jack Daniel’s com churros, entre outros.

Neste episódio, a série “Quebrada Gourmet” apresenta o espaço. A Periferia em Movimento é parceira do projeto na distribuição dos vídeos. Assista:

Semanalmente, você confere na Periferia em Movimento os vídeos do Quebrada Gourmet, um canal de vídeos que dá visibilidade e conta a história dos melhores restaurantes das quebradas de São Paulo, destacando os empreendimentos e promovendo informação cultural. A equipe recebe sugestões de outros estabelecimentos. Escreva para [email protected].

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