(Foto: Joseh Silva)

Políticas públicas não dão conta das demandas dos idosos

Em 84 anos de vida, dona Orlandina Sabino de Oliveira viu muita coisa. A infância foi marcada pelas mudanças de uma fazenda para outra no interior de São Paulo. Em busca de trabalho temporário, o pai levava toda a família junto.

Apesar de rígido, segundo dona Orlandina, ele era “muito bom, não deixou passando fome nem frio”, e ainda carregava a prole para os bailes onde tocava sanfona. Foi em uma dessas idas e vindas, dona Orlandina encontrou o homem com quem se casou.

“Eu tinha vontade de contar as coisas pelas quais passei para outras pessoas”, diz dona Orlandina, que aprendeu a ler depois dos 70 anos no curso de alfabetização para adultos (MOVA) da União Popular de Mulheres (UPM) do Jardim Maria Sampaio, zona sul de São Paulo.

Foi na associação, inclusive, que encontrou apoio para realizar outro sonho: lançar um livro contando sua trajetória pessoal.

A um custo de R$ 1000, o livro foi formatado e cem cópias impressas – algumas delas distribuídas pela aposentada a pessoas próximas. “Uma amiga íntima disse que leu e gostou muito”.

Pequenas realizações como essa ou uma simples viagem ao ‘Norte’ pra matar a saudade não estão previstas no rol de políticas públicas para idosos.

Esse foi o tema do último encontro do Percurso em Defesa da Diversidade Cultural, realizado em outubro pela UPM com o objetivo fazer uma análise de conjuntura para avaliar as políticas públicas que são “executadas” no município.

Resultado de 18 anos de luta dos idosos da região do Capão Redondo, o Núcleo de Convivência do Idoso (NCI) Vida Ativa é mantido por um convêncio da UPM com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads).

“Aqui na periferia temos uma cultura muito boa de convívio comunitário, e o NCI fortalece isso”, diz Gabriela Pudenzi, coordenadora do núcleo. “Mas há aqueles que demandam, por exemplo, visitar um vizinho doente. Temos metas de visitas domiciliares para cumprir, mas para a prefeitura não pode ser qualquer ‘idoso’”, continua.

Outro ponto é a falta de diálogo entre as secretárias. Isso impede, por exemplo, que o espaço do NCI abrigue um curso do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA) – outra reivindicação do público atendido.

A questão é ainda mais complexa.

“Para se ter uma ideia, o plano de metas da prefeitura sequer incluia o idoso. Tivemos que correr para incluir a violência, o direito à cultura, educação, etc.”, aponta Silvia Helena de Brito, assessora da coordenação de políticas para idosos da Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SMDH) da cidade de São Paulo.

Como uma pasta que articula o cumprimento de direitos por outras secretarias, a SMDH está articulando ações como a implantação de unidades de referência em saúde do idoso nas UBS, cursos na Universidade Aberta do Brasil e a abertura de centros para idosos que são semidependentes – como forma de se evitar o asilamento.

“Temos leis, mas ainda é preciso avançar”, diz Silvia. “Sugiro que as pessoas participem mais do conselho municipal do idoso para consolidar um fundo municipal específico, que foi aprovado em 2012 mas não é efetivo. Política pública depende de dinheiro”.