Pingo de Fortaleza e o desafio de disseminar a arte da “periferia da periferia”

No site do Estéticas das Periferias

“Produzir não é o problema”, garante o cantor, escritor e produtor cultural Pingo de Fortaleza. Para o artista cearense, que comemora em 2013 seus 30 anos de carreira, a disseminação da arte produzida em seu estado ainda é de difícil acesso tanto para seus conterrâneos, quanto para o público consumidor do eixo Rio de Janeiro – São Paulo.

“O grande número de discos que a gente está lançando mostra que o problema não é esse. Ednardo mesmo já dizia em sua música Carneiro: ‘vou voltar em vídeo tapes, e revistas supercoloridas, pra menina meio distraída repetir a minha voz’”, citou Pingo ao destacar que ainda há grande diferença na divulgação feita em grandes cidades como o Rio de Janeiro.

Em apresentação no Centro Cultural São Paulo (CCSP) no último dia 31 de agosto, durante o 3º Encontro Estéticas das Periferias, o público encheu o auditório Adoniran Barbosa, o cantor foi acompanhado pela banda de rock Renegados e contou com a participação do cantor e poeta Costa Senna, das cantoras Ornela Jacobino e Mona Gadelha e do grupo Vigna Vulgaris.

Para Pingo, o público da capital paulista é diverso e acolhe a arte cearense que chega à cidade. “Isso se reflete em eventos como este que é o que tem possibilitado que a gente esteja aqui no CCSP. Pra gente é muito importante, porque o Estéticas demonstra uma abertura para as periferias não só de São Paulo, mas do Brasil”, afirmou.

Sobre a divulgação de seus trabalhos, o cantor cearense acredita que as novas possibilidades das redes sociais e da internet não acabam com as barreiras já estabelecidas no mercado fonográfico. “A dificuldade de difusão continua a mesma. As pessoas continuam em sua maioria vinculadas à difusão oficial dos grandes veículos”, disse ao identificar uma solução para este problema: “enquanto não houver uma transformação no processo – que eu acredito que é educacional – isso não vai mudar. Não vai se alterar nem pela mídia livre, nem pelo nosso esforço”.

No Ceará, segundo Pingo, quase ninguém consegue sobreviver com a renda de músicas, shows e discos. “Nesse contexto, eu tive que me virar também como gestor, produtor e escritor. Em uma destas experiências eu trabalhei com mapeamentos culturais em várias cidades do estado. Fui assessor da Unicef e depois ajudei a criar a ONG Solar, que há oito anos é responsável por este projeto de mapeamento”, explicou o cantor.

40 anos de arte cearense

Do rock ao blues, passando pelo maracatu, baião e xote. No show de cerca de uma hora e meia de duração, Pingo mostrou um pouco da heterogeneidade que, segundo ele, inspira seu novo projeto “Pérolas do Centauro”. Com um livro, dois CDs e um documentário, o cantor buscou contemplar as diferentes “rítmicas, linguagens e formas de comunicação” cearenses dos últimos 40 anos. “Já fiz muita coisa no contexto de canudos e do maracatu, mas hoje eu sou muito mais plural, aprendi a gostar mais da música cearense plural. E comemorando os 40 anos no livro, esse sentimento de coletividade está me fortalecendo”, comentou.

De acordo com o cantor, o projeto traz não só suas produções, mas representa “toda uma produção coletiva de 40 anos, ou melhor, de séculos da música cearense, que está presente em livros, documentários e CDs, reunindo mais de mil nomes de artistas que produziram e que estão produzindo no Ceará”. Para o próximo ano, além da divulgação do projeto “Pérolas do Centauro”, Pingo planeja lançar a revista e o disco “Dragão do mar”.

  

Confira abaixo algumas músicas do cantor Pingo de Fortaleza: