Por Paula Sant’Ana*

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

“Sabe quando você falta uma semana inteira, e aí quando você volta de novo está em um assunto que nunca ouviu falar?”, questiona Felipe Lopes, de 15 anos. É assim que o morador do Munhoz Junior (periferia de Osasco, município da Grande São Paulo) resume sua sensação ao retomar as aulas presenciais recentemente. Afinal, foram quase 2 anos distante da escola.

No início da pandemia, em 2020, Felipe estava no 9° ano do Fundamental. Agora, ele cursa o 1° ano do Ensino Médio na  Escola Estadual José Edson Martins Gomes. Em boa parte desse período, as aulas aconteceram à distância. E para ele, o mais difícil foi o acúmulo de atividades, com uma atrás da outra.

“Um professor chega, manda um trabalho e fala ‘é rapidinho’. Chega outro professor e passa lição de casa. E você fala: ‘ah, tem que fazer esse também'”, explica Felipe. “Querendo ou não, vai ser um acúmulo porque são vários professores que querem várias coisas”.

Felipe Lopes, estudante do Munhoz Júnior (foto: Arquivo pessoal)

São muitas questões sobrepostas umas às outras. Se a frequência presencial foi impedida pelo coronavírus, a virtual não foi facilitada. É uma situação complicada para jovens, pois apesar de normalmente terem maior familiaridade com tecnologias, precisam de foco para estudar e evitar distrações. 

Anne Cristina, estudante em Santo Amaro (foto: Arquivo pessoal)

“Tem vantagens e desvantagens. A vantagem é que os acessos são mais rápidos em vista do que era antes, e a desvantagem é que tem pessoas que não utilizam exatamente para o estudo”, opina Anne Santos, de 17 anos, estudante do 3° ano na EE Professor Alberto Conte, em Santo Amaro (zona Sul da capital paulista).

As interferências vão além do visível. 

De acordo com a UNICEF, a “cultura do fracasso escolar” já impactava estudantes em situação de vulnerabilidade, mas a covid-19 trouxe desafios ainda maiores para quem educa. Essa “cultura” trata da normalização da não aprendizagem ao longo da vida escolar e, consequentemente, da reprovação como algo cotidiano. O tempo passa e a tendência é que estudantes deixem os estudos para trás.

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Um resultado direto disso, apontado por especialistas, pode ser visto nos números do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que aconteceu nos dias 21 e 28 de novembro deste ano. A principal prova para ingresso nas universidades do País, tanto públicas quanto particulares, teve cerca de 3,1 milhões de inscrições – a menor taxa desde 2005. No ano passado, o número de pessoas inscritas foi de 5,5 milhões, porém com 51,5% de abstenções. São pessoas que deixaram de ir fazer a prova por diversos motivos, como logística, biossegurança e receio devido às defasagens sentidas ao longo do ano letivo, por exemplo.

O sentido da escola presencial

Para Luiz Montenegro, de 18 anos, os reflexos da pandemia ultrapassam a parte educacional. “Eu me sinto um tanto abalado e prejudicado pela própria pressão que eu colocava em mim e, com isso, veio o desânimo”, diz o estudante do 3º ano na EE Francisco de Paula Conceição Júnior Professor, localizada no Jardim Mitsutani (zona Sul de São Paulo).

Luiz Montenegro, estudante do Jardim Mitsutani (foto: Arquivo pessoal)

Por sentirem certo desânimo e prejuízo, é comum entre estudantes o desejo de terminar logo os estudos para poder viver a vida lá fora o quanto antes. “Se você for conversar com um adolescente hoje que ele precisa ficar mais um ano na escola, 80% deles vão dizer: ‘Não, Severo, você está louco? Eu quero ir embora'”, observa o professor Severino Honorato, que trabalha na Escola Estadual Reverendo Jacques, localizada no Parque Santo Antônio (zona Sul).

Para o educador, o Ensino Médio deveria durar mais tempo para suprir o tempo perdido. Mas ele sabe que, em muitos casos, a molecada prefere deixar o ensino regular e esperar para ingressar na Educação de Jovens e Adultos (EJA). A modalidade é destinada a maiores de idade que não concluíram a última etapa da educação básica e tem um tempo médio de 18 meses para conclusão.

Nesse sentido, qual é o papel da escola, então? É o de promover a convivência social e integração. E retomar esse sentimento desgastado após quase 2 anos de incertezas é algo coletivo. 

Professor Severino (foto: Arquivo pessoal)

“Primeiro, que a escola tem um papel de socializar. A primeira coisa é essa, o papel de integrar as pessoas. Não existe nenhuma invenção, uma guerra, uma conquista individual – isso aí é mentira. Só existem conquistas coletivas”, comenta o professor da rede estadual.

Estima-se que estudantes da rede estadual de São Paulo vão assistir às aulas até o dia 23 de dezembro. E desde o retorno à escola, na visão do professor Severino, os alunos tentam recuperar o que perderam. “Eu tenho percebido as nossas salas agora com a volta da [frequência] 100% estão lotadas. As escolas estão cheias de alunos. Os meus adolescentes querem fazer o Enem, os meus 3º anos estão preocupados com o Enem, com a faculdade”, conta.

Para dar conta disso, abordar as condições de saúde mental é essencial. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO), não tratar disso pode prejudicar e limitar futuras oportunidades já na vida adulta. A adolescência é um período para desenvolvimento e manutenção de hábitos sociais, porém, essa proximidade de um importante ciclo de convivência foi quebrada com este período de ensino via internet, longe fisicamente de docentes e colegas.

Larissa Viana, do grêmio na ETEC que fica no Jardim Satélite (foto: Arquivo pessoal)

Por isso, além dos esforços de profissionais, estudantes têm se mobilizado com o intuito de promover acolhimento, visto que o momento é de readequação. “Acho que uma das primeiras coisas que a gente organizou foi o Setembro Amarelo com relação à saúde mental, rodas de conversa, convidamos psicólogos para irem na escola e a gente também organizou acolhimentos psicológicos e individuais para os alunos”, conta Larissa Viana, de 16 anos. Ela é estudante do 2° ano do Ensino Médio na ETEC Irmã Agostina (no Jardim Satélite, extremo Sul de São Paulo), membro do Grêmio Estudantil e do Conselho Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES).

“A gente tá dando andamento a esse projeto e já está fazendo outros acolhimentos, mesmo não estando mais em setembro. Até porque a questão da saúde mental é necessária sim e aí a gente levou também um debate sobre a questão da auto aceitação, conversou sobre o quanto a questão da nossa conjuntura afeta na saúde mental”, complementa a estudante.

*Paula Sant’Ana faz parte do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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