A Batalha do Passinho e os espaços consquistados pelo funk

Por Carolina Ito

A Batalha do Passinho é uma manifestação recente que surgiu nos morros do Rio de Janeiro e, agora, encontra seguidores também em São Paulo. No dia 31 de agosto, durante o Encontro Estéticas das Periferias, o Centro Cultural da Juventude (CCJ) Ruth Cardoso recebeu vários dançarinos.

Geralmente menores de idade, eles têm 45 segundos para mostrar seus passos ao som de uma batida básica de funk. Os movimentos rápidos e improvisados de acordo com a batida lançada pelo DJ formam uma combinação curiosa de break dance, frevo, capoeira e os rebolados do funk, executados de maneira descontraída e sem pudor pelos garotos do passinho.

A presença de MCs no evento também foi importante, pois eles representam uma geração mais antiga do funk paulistano.  Atualmente, o estilo se divide em muitas vertentes ,como as do funk ostentação, consciente, sensual e de apologia às drogas e à violência. Embora existam contradições e críticas voltadas principalmente para a vertente da apologia, esses segmentos parecem coexistir de maneira pacífica e difusa nas composições dos mcs.

“O meu funk é mais pra um consciente partindo pra ostentação”, comenta MC Leitão, da região de Vila Rica. Além dele, também teve apresentação do MC Garden, com um funk carregado de crítica social, intitulado “Isso é Brasil”.

Outro grupo presente no CCJ foi o de dançarinos de break dance que costumam ensaiar regularmente no espaço. Um deles era Fábio Santana, de 21 anos, do Jardim Brasília, que começou a dançar sozinho assistindo vídeos e depois encontrou um grupo para treinar. O aprendizado da dança por meio de vídeos da internet é uma prática comum, tanto no break como passinho, e hoje existe um vasto conteúdo disponível na rede sobre os dois estilos.

Fábio, que pratica o break há cerca de cinco anos, diz que a dança se tornou sua “luxúria”, gíria que usa para se referir a algo que ocupa grande parte do seu tempo e oferece muito prazer. “Atualmente eu tô desempregado e sei que se eu começar a trampar e estudar, vou ter largar a dança”, comenta. Por esse motivo, ele procura se informar sobre oportunidades de trabalhar com break dance, mas não tem muitas expectativas, afinal, “poucos dançarinos conseguem emprego na área”.

Conhecidos por quem?

Na Batalha do Passinho daquela tarde, poucos concorrentes inscritos se apresentaram. Mesmo com hits tocando o tempo inteiro, era difícil ver alguém dançando, havia um acanhamento geral. DJ Dil, o apresentador da batalha, alertava no microfone que esse era apenas o primeiro evento de funk de muitos que viriam, na tentativa de incentivar os competidores e fazer com que as pessoas se acostumassem com a ideia de ver o funk em um centro de cultura.Vanderson, de 18 anos, foi o vencedor da batalha. Ele e seu amigo Iago, de 20 anos, que também concorreu ao prêmio, moram na Vila Nova Cachoeirinha e não costumam frequentar o CCJ. Também não costumam ensaiar de maneira regular, pois o passinho está mais ligado à convivência, aos momentos de lazer.

“A gente dança sem parar. Na escola, em balada, na rua…”, explica Iago, abraçando o amigo em sinal de parceria. Vanderson complementa dizendo que aprende alguns passos vendo outros meninos dançarem na rua e que, quando quer aprender algo diferente, procura vídeos na internet.

No funk, eles possuem ídolos jovens ou até mais novos do que eles, como MC Nego do Borel, Bonde dos Magrinhos, MC Daleste (que foi assassinato em um baile funk), entre outros. Mas o grande ídolo do passinho, foi mais uma vítima da violência contra funkeiros.

“Pra nós o rei do passinho, que tá lá no céu, era o Gambá. O moleque dançava muito, a gente se inspirou nele”, diz Vanderson.

Gambá era o apelido de Gualter Rocha, de 21 anos, conhecido por dançar em bailes funk e por ter participado do programa “Esquenta!”, da Rede Globo. Segundo as investigações, ele fugiu desesperadamente de um baile alegando ser perseguido e, pela manhã, foi encontrado morto por espancamento e asfixia na casa que entrou para pedir socorro. No fim, o “rei do passinho” foi enterrado como indigente. 

Veja a performance do rapaz:

Palco e rua em construção       

Apesar das circunstâncias nebulosas dos assassinatos de Gambá e MC Daleste, a conquista de sucesso e dinheiro é frequentemente associada às motivações de violência por pessoas do meio funkeiro. Para o DJ Dil, de 36 anos, morador de Guaianases, a morte de Daleste ainda pode ter contribuído para a entrada do funk ostentação na mídia televisiva, trazendo outros expoentes como MC Lon e MC Guimê. Sobre essa inserção midiática, ele analisa que “o lado bom é que as pessoas que cantam funk hoje aprendem a levar a música mais a sério. Muitos vivem disso e ganham muito dinheiro, inclusive”.

Mas a entrada do funk na televisão ocorre, obviamente, com restrições em relação às danças e ao conteúdo das letras, permitindo a ascensão de artistas como Naldo e Anitta, de uma vertente de funk mais pop, adequada aos apelos comerciais. Dil pondera que também existem funkeiras da vertente sensual que conseguem atingir o grande público, como é o caso da Valesca Popozuda, porém, “elas aparecem menos na mídia como cantoras, elas vão mais pra mostrar a estética, o corpo, porque a mídia tem uma certa restrição”.

As contradições acerca do que é socialmente aceitável em termos de estética corporal, gestual e verbal ficam evidentes quando se discute a popularização do funk nos meios de comunicação.

Essa questão também preocupa os integrantes do Bonde TNT, grupo que ficou famoso no Youtube com o viral “Piripaque do Chaves”. Os meninos começaram a se apresentar em bailes funk há sete anos, mas só conseguiram visibilidade com o sucesso recente conquistado na internet. Hoje, fazem cerca de quatro shows por semana e aparecem em diversos programas da televisão aberta.

“A gente gosta de fazer músicas que todo mundo pode ouvir, de criança até idoso. A dança sensual é só em show que é pra maior de 18. Quando tem show da prefeitura, do governo, a gente usa um repertório sem coisa apelativa”, explica Gustavo, de 21 anos. Bruno, o DJ do bonde, complementa dizendo que eles preferem utilizar o humor nas letras e coreografias.

Sobre a batalha do passinho daquela tarde, Gustavo comenta que sentiu falta da presença de crianças: “onde a gente mora, na Cidade Tiradentes, os neguinhos da favela dançam muito. Lá a gente faz um som na rua, em quermesse, com os carros tocando e tem o rachão, que é quando fica uma galera de um lado e outra do outro”. E dá-lhe passinho.

Veja abaixo o clipe “Piripaque do Chaves”